Ser poeta é dar sorrisos às lágrimas, Sentir o rasto delas nas emoções, Dizer de si o que a ilusão promete, Absorver a fragância dos sonhos E esperar que um abraço o aquiete. Ser poeta é condição maior, até suprema, Entre pés de barro e marionetes de cristal, Vento fresco nas tormentas de Agosto, Malmequer num mar de incertezas E saber que o paraíso mora num poema Ser poeta é ser rei do nada em campo de papoilas, Bordador de palavras e contador de medos, Alquimista de fogos-fátuos e de impossíveis, Pateta feliz num mundo de tanta dor, E fazer de um verso um acto de amor. Ser poeta é desordem e desobediência, até pecado. É semear beleza no caos da normalidade, Colher sorrisos em beijos que enlouquecem, Sorver todos os humores então sonhados E querer, em cada momento, a eternidade. Fernando Morgado
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Neste traço de avião em que te vejo, Acompanham-te os meus sonhos já cadáveres. Ficou a poeira dos abraços que não demos E o aroma dos beijos que evitamos. Um gin tónico, e um sol que se anoita… BB King faz as exéquias desta despedida “Rock me baby, rock me all night long”, E sinto-te ao quebrar das ondas nos meus olhos. Estou aqui, onde tantas promessas entreolhamos, Com sabor a insanas e patetas covardias. Rasga-me o silêncio a desordem das gaivinas em retorno. Resgato a primeira para teu nome, que não sei… Cecile, chamo-te assim porque gosto. Outro gin, uma lua que se instala em maré cheia, E uma guitarra que me abraça nos seus acordes “You don’t know how it makes me feel”. Nada nos pedimos, nada nos demos, tudo quisemos! Partiste, neste traço de avião que já não vejo. Resta-me a recordação para ocupar a tua ausência, E fica pouco do que nunca existiu. Fernando Morgado
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Não sinto mais a rugosidade do teu peito que me cala o choro e distrai a fome. Falta-me o colo e os beijos umbilicais, até as lágrimas e as rezas deixei de ouvir. Não sei de ti, entre tantos gritos que se fundem. Há um colo novo, ávido de vidas, que me acolhe, como se todas as tuas lágrimas fossem mar, e nele procuro e não encontro os teus cabelos. Sobrevivo na ilusão desta falsa boia que me atiraste em jeito de epifania. Guardo-a ainda em altar de muitas velas, e releio, com as lágrimas que em mim guardaste, o poema que nela puseste para me maternizar: “Meu tesouro, meu amor, minha vida, o novo mundo está quase, a poucas milhas. Seremos uno no futuro que viverás sem mim, é no amor que seremos um corpo inteiro. Engole-me o mar num expiar de mil angústias, com o desejo incontido de que sobrevivas para continuares, na tua vida, a nossa eternidade.” Fernando Morgado
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Era o medo o que nos vinha acariciar, e em pano de suspiros abraçávamos sorrisos. Era o e depois que nos fundia em suores, em cuidados esquecidos nos incomodávamos. Das manhãs de primavera fazíamos tardes de outono, atapetávamos de cheiros os nossos olhares beijados, fizemos da paixão a véspera de um grande amor. Era o medo o que nos vinha confirmar, E em pano de beijos jurávamos futuros. Desenhávamos Abril em desejos de Natal e deixávamos que os lábios nos desordenassem. Trocamos o primeiro beijo das nossas vidas como se os nossos corpos se ressuscitassem, e em cada recobro éramos iniciação. Era o medo o que nos vinha juntar, e em pano de mar navegávamos destinos, éramos a proa e a ré em vela trôpega. Cruzávamos horizontes em loucas conquistas, para que os impossíveis fossem os nossos cais. Era o medo o que nos apaixonava. Fernando Morgado
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Começo contigo, sem medo, esta caminhada nos sonhos que partilhamos. Partimos à procura dos medos para os vencer. Somos Quixotes das poeiras alheias e das sombras que teimamos enfrentar. Nas margens do erro, enterramos as regras e os estigmas, e fazemos do amor a fonte onde nos dessedentamos. Eros e Vénus, aprendizes de nós, soletram espanto da ternura e desejo, da paz e pulsão com que nos abraçamos. Somos deuses e fé nos caminhos que vamos somando, plenos de ameaças e desdéns, na contramão da nossa força. É a determinação que nos leva, é a vontade que nos calça. No cantil, que desarrolhamos com beijos, guardamos luz; dela precisados sempre que uma ruga nos enfeita o rosto. Meu amor, estas pedras que nos calejam e nos confortam, são as mesmas que juntaremos em paredes firmes, para nos abrigarmos e protegermos dos ventos sépios, das tempestades bojadoras e das noites medonhas. Meu amor, semearemos sorrisos e colheremos beijos, e nunca nos contenta...
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Dar-me-ei no silêncio do meu grito: ouve! Guardo nele as palavras que nunca te direi. Tu és o meu caminho e a minha eternidade. Dar-me-ei, íntegro, em cada sorriso teu. Tu serás sempre a expressão do meu sonho, a força da minha crença, do meu querer. Só se for para ser eterno é que vale a pena viver. Dar-me-ei no sussurro doce e terno que não vês. Estarei, distinto, entre tantas vozes que te adoram. Guardo, em prece, os mimos que não te posso dar e todas as brincadeiras que ficarão por brincar. Estarei nas tuas dúvidas quando te negarem que existo. Saberás de mim sempre que te proibirem de me ver. Não nasceste proibido; proibir não é viver! Ouve! Talvez um dia o meu eco te responda. Estarei no teu corpo, no teu sangue que também é meu. Um dia saberás que somos, ou que fomos, contemporâneos. Cobrirão de noite a minha integridade, o meu merecimento, mas nunca calarão o meu mais puro sentimento. Ouve o silêncio do meu grito: só tenho amor para t...
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Na sombra do teu sorriso nomeei-te nativa dos meus sonhos. Noivamos em noite de paraíso, no crepitar serenos dos nossos corpos. Neptuno e Nereu uniram-se por nós, norteando marés de prata no silêncio de vozes beijadas. Negro mar que nos acoita ao luar, na ilusão do nirvana que procuramos. Navegamos na asa do albatroz, neste sonho nativo do teu sorriso, neste sorriso nativo do meu sonho. Nitente olhar que me enfeitiça, néctar de amor em vulcão, no teu rosto aporto-me em paz, nos teus braços partilho futuro. Nascem auroras de paixão no cupez do nosso manto. Neste mar de fogo, em que navegamos, Nomeio-te nativa do meu amor. Fernando Morgado