quinta-feira, 10 de março de 2016


 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 



Farejo a vida na marcação dos meus amores,
com o sentimento de caminho curto
que percorri entre o delito e o prazer.
Ficaram beijos e abraços por dar, e desejos por viver.

Soletro, um a um, os meus pecados, não cumpridos,
em catação de tantos sonhos ainda futuros,
como se não houvesse o tempo a desproteger.

Saboreio “la belle époque” dos encantos que construi
em tons, longos e largos, de abraço e mel,
no crepitar intenso dos versos que escrevi,
e com eles sonhos dei e recebi.

Desvisto as personagens que encarnei,
deuses e demónios, em brado e desassossego,
e fico com a nudez dos pecados não-culpados.

Hoje, vivo os rumores que a minha cegueira antecipa.
Subtraio prazos e normalidades delirantes.
Não espero glória ou comendadoria: vistam-me nu.
Os meus versos serão a minha eternidade: os meus amantes.

 
Fernando Morgado

quarta-feira, 9 de março de 2016

Hoje,
quando as gaivotas voltarem,
Estarei com elas nesta areia morna
que o sol deixa.
...
Espero-te, sempre aqui,
conto-te em ondas.
Tantos abraços para te dar,
o meu corpo quer.
Sinto-te na maresia
que a minha boca beija.
Saberei de ti
quando as gaivotas voarem.
Podes ficar,
o teu corpo quer.

Fernando Morgado

segunda-feira, 7 de março de 2016


 
 
 
 
 
 
Claro que fica entre nós. Não me revejo no teu julgamento em praça pública.
Agradeço-te eternamente. Preciso mesmo de alguém como tu para mitigar este meu receio.

Confrontei-me estes anos todos com esse estigma. É uma ferida aberta, em crosta de medo.

Podes confiar, e continuar a contar comigo para desabafares. Todos temos os nossos problemas…

Sempre que o fiz, foi em voo de rapina, ao som de uma canção de amor. Por isso, nunca quis mais que um aluno ao mesmo tempo.

O beijo! Eu sei…também eu gosto de os roubar, sem fazer vitimas. Nunca o fiz em confronto, menos ainda em sofrimento.

A beleza dos lábios – inocência e descuido - deixa-me sem equilíbrio, sem probidade.

O que mais impressiona no teu desabafo é a frieza com que o dizes; o princípio e o fim em que o beijo é o que menos conta.

Também fui cobaia. Sabes lá o que é ter a mão ainda pequena para o prazer alheio!

E…

Sim, a mão e o corpo; as noites e os dias; a boca e o cheiro; a ameaça e o silêncio: nem a imaginação te dará respostas.

Toda a gente te admira, sempre foste, e és, muito bonita. Sempre interessada e disponível, nunca alguém percecionou esse teu fétiche. Mas…confia…fica entre nós!


Um dia destes, vou falar contigo. Preciso de falar contigo, sei que me ajudarás.

Também tens a memória cheia?

Não, tenho a carteira vazia!

 Sabes que estarei sempre aqui, ou do outro lado da linha, pronta para te ouvir.

O Novo Banco foi uma desgraça…

Como assim?

Falamos depois. E o amor? Nunca te apaixonaste?

Gosto de algumas cenas, não daquelas que sobrevivem muito tempo.

Eu e a minha mulher gostamos muito de ti; gostamos de umas cenas!

Mas…

Podes confiar em mim!

(Poderes: 2)
 
 
Fernando Morgado

quinta-feira, 3 de março de 2016


A camisa bordeaux e a gravata amarela; os sapatos que levei ao casamento do Miguel; o fato é o único que tenho e que me levará para Agramonte. Olho mais uma vez o espelho – gosto de me ver Fred Áster -, e saio para a rua. Desço a rua do Souto, atravesso Mouzinho da Silveira e vou a caminho da feira dos pássaros. Mas…
É a catarina que vejo, todos os domingos, à porta da Adega do Olho, na rua mais pequena do mundo.

Era uma mulher de garra, mas de muita ternura. Gostava de sentir o seu sorriso, servido em rosto lavrado pela beleza; sentir o cheiro a anis e vermout que a aquecia nas manhãs molhadas de Inverno duro.

Catarina era mulher de “asneiras”; empatia brejeira, palavrão desbragado.
“Faz-me sentir mulher!”, estas palavras, deixadas por ela no meu desassossego, são a mola de muitas memórias. Nunca soube o que a fiz sentir, mas sempre gostei de sentir a sua loucura – non stop -, de sentir a sua pele diabolizada pelos nossos suores, de sentir a juventude do seu ventre em toureio de corpos.
É a Catarina que beijo na repetição dos meus sonhos: gosto de sentir os seus lábios carnudos e bêbedos. É a Catarina que abraço nos meus inquietos suspiros: gosto de sentir o desejo crescer entre nós.

Hoje, sobra o José Borges. Não larga a ombreira da tasca, todos os domingos, sem sentir a chuva ou o sol, até que o ocaso etílico o retorne à sua enxerga. O Zé é, ainda, o eterno amante da Catarina. Nunca a questionou, para a ter, mesmo sabendo das suas asneiras e dos seus amores.
É nele que eu a recordo.

A Catarina morreu. É duro sentir a falta da Caty.

O meu amor não morreu.

Olá Miguel.

Eramos ainda pequeninos, eu nos meus inocentes 10 anos e tu acabado de nascer, quando nos conhecemos.

O meu orgulho em poder ajudar os meus pais com os 180$00 que todos os meses lhes levava, era igual ao orgulho do teu pai em ti. Eras um menino lindíssimo: cada peça de roupa que usavas era mais cara que o meu ordenado. Envaidecia-me com as roupas que já tinham agasalhado os meus irmãos – a minha mãe dizia que eu era muito bonito: como tu!

Crescemos tanto, Miguel: tu, nos estudos; eu, no trabalho.

Vi-te no cortejo da Queima e até me emocionei: temos Doutor, patrão! O teu pai não segurava a emoção de ter um filho tão inteligente!

Viste-me passar de grumete a 1º escriturário, e hoje, em fim de caminho, sou excedentário: a nobreza da nomenclatura.

A ti, que nunca deste proveito ao “canudo”, vi-te nas ondas e nos ralis; nos odres e nos casamentos desfeitos: hoje, e ainda, és o meu patrão!

Que saudade do teu pai! A vida já não é o que era: sacrifícios para mim e excessos para ti.

Nem tu me visitaste no hospital quando fui operado, nem eu vi o teu Porsche que tão levianamente compraste e logo o estouraste. Também foste para o hospital…privado. O meu internamento não me deixou ir visitar-te.

Hoje, Miguel, sei que passas por muitas dificuldades: não me pagas o ordenado há meses; tens os fornecedores e o fisco à perna e uma vida em retalhos.

Hoje, Miguel, estou bem: tenho as minhas poupanças; uma vida ainda acesa para alguns sonhos e um menino muito bonito para mimar – o meu neto! Tão bonito como eramos nós.

Vou-me embora, Miguel. Procura viver em paz.

Eu, embora reformado, tenho a felicidade à minha espera.

Boa sorte, Miguel.