quarta-feira, 26 de abril de 2017

Desafio Rádio Sim nº 46
 
#77palavras
O nosso texto para este desafio tem 12 palavras obrigatórias.
Mas, cuidado, as regras são diabólicas, leiam com atenção!
Não podem escrever mais do que 6 palavras livres entre duas obrigatórias, mesmo mudando de frase.
(podem ser menos e, no fim, ficam à vontade)...
Por exemplo:
Eras um tolo, segurando aquele trevo como se fosse possível salvar-te daquela polémica. Tão tolo que nem te imaginaste preso........

Aqui estão elas:
 
PRESO -   LUZ -   CONFUSÃO -   MUDANÇA -   SABER -   POLÉMICA

PISADO -   NESGACORAÇÃOJUNTANDO - TREVO - SIMPLES

Dou-vos liberdade na ordem, mas só podem ser alteradas em género e número (mudar entre feminino/masculino e singular/plural).

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O MEU TRABALHO:

"Partiu!

As luzes apagaram assim que a confusão se instalou. O que parecia simples tornou-se polémico. Mesmo para um coração pisado, e preso a um trevo mentiroso, aquela mudança era dolorosa.

Naquela nesga de amor – ilusão –, juntando tudo o que não queria saber, percebeu a solidão das suas esperanças.

A quem muda Deus ajuda, pensou para si. Não lhe interessava mais ouvir as suas mentiras; também ela estava disposta, finalmente, a ter um namorado a sério.

Partiu!

Fernando Morgado, Porto.

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Passou na RÁDIO SIM no dia 6 de Março de 2017

http://radiosim.sapo.pt/Detalhe.aspx?fid=1374&did=43687&FolderID=1271


#opramimaler

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O teu primeiro aniversário.


Os dias correm na velocidade contrária aquilo que queremos.

Há um ano atrás, contava os dias na esperança de que nascesses no dia do meu aniversário. Não sei porque destino, porque caminhos, porque vontades, até podias ter nascido no Dia Internacional do Livro mas, nas voltas do vira, nasceste no Dia Internacional da Dança.

Ainda bem. Porque bem, bem mesmo, foi teres nascido; teres nascido perfeito, com saúde, e com a beleza imensa que nenhuma outra há igual - aos meus olhos!

O tempo, em modo matemática de dias e horas, não se acomoda aos nossos desejos. Quero que o meu tempo passe devagar; não porque quero viver eternamente, mas porque quero ter tempo para te abraçar, para – olhos nos olhos – poder dizer-te: eu sou o teu avô. Já alguém te disse isto?

Ou então, quero que o tempo passe depressa para te ver homem. Até tu, daqui a tempos, vais querer chegar mais depressa ao tempo da escola, ao tempo da universidade, ao tempo do namoro, ao tempo do trabalho, ao tempo em que poderás, por ti, controlar o teu tempo.

Disse esta frase, na banalidade que lhe pertence, muitas vezes: o tempo tudo cura! E não é que agora acredito mesmo nisso? Um dia, os sins e os nãos que valem mesmo a pena serão aqueles que saírem da tua boca, do teu pensamento, das tuas opções.

Vais fazer um ano! Vão-te celebrar com alegria, com paixão, com desejos e sonhos. Talvez, até, te celebrem com água benta. Vão dançar o Hino da Alegria para pedir proteção e saúde, prosperidade e sorte. Vão dançar…porque é o teu dia. O Dia Internacional da Dança.

Também eu te celebrarei. Apaixonado.

Somos do mesmo signo - Touro. Eu de 23 e tu de 29. Abril é mês de liberdade. És o cravo vermelho dos meus sonhos.

Sábado à tarde, e num passo de magia, mal a vela se acenda, ficarei em alegria. Sábado à tarde, será uma tarde bonita, tarde que sendo infinita, caberá toda na minha ilusão.

Sábado à tarde, estarei onde estiveres, porque o sonho não aceita que lhe domem os poderes.

Estarás sempre nos meus caminhos, porque os meus melhores caminhos são desenhados pelo sonho.

Sábado à tarde…

 

Fernando Morgado

segunda-feira, 17 de abril de 2017

 
 
OS MEUS MOSAICOS – 32
 
 
A MINHA VARANDA, DE NOVO.
 
Vou até à varanda e por ali me deixo ficar por largos minutos.
Os meus olhos percorrem a paisagem; procuram primavera.
Deixo-me em pensamentos, em restolho de memória, e fico naquele balanço que me dá aquilo que vejo e aquilo que recordo: na mesma paisagem, nos mesmos sítios.
Desde logo, a Rua de Tomás Gonzaga, onde moro, antes sem casas devolutas e com a alma que lhe dava o bulício de tanta gente, a roupa a secar em cada janela ou varanda, o pequeno comércio, a ausência de carros estacionados, a miudagem em algazarra por tudo e por tudo e agora…
Hoje, esta rua exagera no sossego e no silêncio. Os naturais foram desaparecendo, pela morte ou pela vida, as casas ficaram desabitadas ou abandonadas, as crianças já não brincam nem gritam – não as há, e as poucas que há estão recolhidas em casa a desenvolver conteúdos informáticos ou multimédia para construção de futuros modernos.
Os meus olhos percorrem a rua; procuram vida.
Lá ao fundo, a Igreja à direita e o parque infantil à esquerda; havia, mas já não há. Que eu saiba (estarei errado?), Miragaia não tem espaços públicos para entretenimento e lazer das suas crianças e adolescentes. Este é um facto comum a outras freguesias (arranha-me o termo “união de freguesias”).
Hoje, é tema de discussão o número de agências da Caixa Geral de Depósitos que vão fechar em todo o país. Hoje, já não é discussão o número de equipamentos urbanos que se foram perdendo ao longo das últimas décadas. Dantes tínhamos o dinamismo da banca…hoje temos o amorfismo das freguesias.
Lá ao fundo, a igreja, à direita. Já houve um tempo em que via esta igreja à esquerda. No tempo em que a pastoral católica, aproveitando a agregação pela Fé, se empenhava numa liturgia profundamente social.
Ali fui baptizado, ali fiz a catequese, ali fiz a primeira e segunda comunhões. Ali cresci até ao casamento que, não por acaso, não foi ali mas foi em Miragaia. Ali me quiseram cordeiro, ali me desengraçou a pele.
Hoje, a igreja de Miragaia é comum ao declínio da Fé e da esperança, embora eu tenha ouvido referência elogiosas à pastoral do Padre Renato, actual prior.
Os meus olhos procuram a Fé; percorrem a dúvida.
O rio Douro está bonito. Vejo-o desde o Cais de Gaia até Lordelo e ressaltam-me diferentes texturas. A cor da água e a corrente não mudaram; as margens são as mesmas; as marés continuam como sempre, enchente, vazante e preia-mar – exclusivamente dependentes de factores astrológicos, cúmplices do namoro entre o Sol e a Lua.
Onde ontem só se viam as ossaturas decrépitas de muitas barcaças, outras ainda em uso efémero, alguns caíques e pequenos barcos de pesca à linha, hoje pululam outros géneros de embarcações.
Em movimento formigueiro, meia dúzia de “river sightseeing” cumprem a ilusão de mostrar o Porto nas suas margens. Por entre eles, emerge imponente o “Douro Cruiser” de grande calado e outras mordomias. Ao longe, sob o arco da Ponte da Arrábida, uma mão cheia de cascas de noz à vela – chamam-lhes optimist – serpenteiam entre eles o colorido das suas velas. Mais ao longe, na Afurada escondida numa curva de rio, estão em descanso, ou em manutenção, os barcos de pesca: parideiros de fartura ou fome, de alívio ou viuvez, mas sempre em faina dura, muito dura!
Os meus olhos percorrem o tempo: procuram remos.
Volto à varanda, de onde ainda não saí, para me sentir em viagem.
Aos meus olhos, o casario de Gaia – Vila Nova é mais acima – e a predominância das caves. Onde havia campos há casas, e onde havia casas há ruinas. Os néones do “port wine” mantêm-se e os grafitis vão tomando conta de espaços sem guardador. Alguns palácios e solares ganharam melhor estética com o advento do turismo massivo. Outros prédios são pasto da bolha hosteleira.
Não, não sou contra a dinâmica turística actual. Gosto que vejam aquilo que amo – o meu Porto -, mas já há conhecimento adquirido do que aconteceu em outras paragens deste planeta. Aprender o bom não faz mal a ninguém!
Repasto o olhar no Cais de Gaia, outrora cais de estiva e hoje um peculiar estaleiro de restaurantes falentes. Encerram uns e reabrem outros em sacrifício da qualidade.
Vejo o Convento de Corpus Christi, aonde levava algumas peças de linho para engomar, ou ia comprar snacks salgados e doces para uma qualquer confraternização. As raparigas de maus costumes, ali carceradas em tutoria, faziam estes trabalhos “voluntariamente”
Este Convento foi lugar de oração, passou a prisão e agora é órgão da câmara. É também uma montra de cultura. Ainda bem.
Os meus olhos percorrem as caves: procuram sabores.
Os barcos continuam em labor, o sol já se está a por, e eu continuo na varanda. Não consigo encurtar palavras para continuar a descrever o que vejo, o que penso, o que sinto. As gaivotas, sempre no meu horizonte em qualquer olhar meu, fazem-me companhia e testemunham a minha crónica. As pombas perfilam-se no telhado em frente, à espera que a ração lhes seja dada. E os gatos são os de sempre, como fotocópias dos que conheço desde que nasci. O Gugu, príncipe da casa, espera por mim no sofá; senhor do seu nariz, acha que a casa é dele, e é ele que me deixa habitá-la. Os gatos!
Voltarei aqui para vos falar da Alfândega e do Largo, de Monchique e das Sereias, dos telhados e das clarabóias, dos ratos e dos gatos, outra vez. Esta varanda é imensa.
Os meus olhos percorrem as casas: procuram afectos!
 
Fernando Morgado

quarta-feira, 22 de março de 2017

MULHER

Vieram todos para ver a homenagem.
Trazem flores, sorrisos e compromissos.
Escondem as mãos que ontem bateram
e as línguas que usaram para os insultos.
São gente séria na torpe andança da aparência, ...
e dizem que a ignomínia não cabe na inocência.
…os maridos das outras são…
...ah, e tal e coisa, é o dia da mulher.

Vieram todos no arquétipo da perfeição.
Trazem perfume, testosterona e tesão,
cartão de crédito e a chave de um carrão.
Usam Gucci, Morato ou Zeza das feiras,
dressing apearance para foto de perfil.
Dizem que o futuro será de beijos mil
E discursam em ensaiadas boas maneiras.
…os maridos das outras são…
....ah, e tal e coisa, é o dia da mulher!
Pão e Paz, violência não!
Paz e Pão, desconsideração não!
Quando as mulheres despertarem…
os maridos das outras também não!
Tal e qual, hoje e sempre, a Mulher é o Dia!

(poema para ser lido todos os dias 9 de Março)

Fernando Morgado
UM MOSAICO MUITO ESPECIAL

Olá pai.

Não, não venho dizer-te que hoje é o “dia do pai” e etecetera e tal, até porque hoje é o dia do meu pai, como todos os dias são, e estou-me marimbando para o dia 1 de junho, teu aniversário, para o dia dos namorados, meu namorado eterno, para o dia 23 de Abril, quando nasceu o teu quarto filho, para o dia de páscoa, também fui a tua cruz, para o 10 de junho, S. João, Carnaval e, até mesmo, o dia de Natal: falo contigo todos os dias, e tu sabes como me conforta o nosso diálogo.
Já lá vão 12 anos - é verdade, o tempo passa a correr – em que te disse “Até já, pai. Espera por mim no paraíso do nosso abraço eterno.” E tu partiste para me abrires caminho, para me fazeres ver outros caminhos, para me guiares em algumas rasteiras da vida.
Há dias, abri um pequeno cofre antigo onde tu guardavas fragmentos de memória, fotos e outros papelinhos, facturas de mobília e de roupa, pequenas peças mudas que te diziam muito, e outras ninharias que foste acumulando; relógios, algumas peças de metal caro e o distintivo do teu Boavista.
Desta vez, quando o abri, encontrei só a chave do cofre em que te embalaram quando partiste, e muitos cartões que retirei das palmas de flores, ramos de flores, e muitas outras flores que te deixaram como quem deixa abraços e beijos e outros louvores.
“Os meus pêsames”, “Sentido pesar”, “Condolências” e outras clemências protocolares dos momentos de partida, remeteram a minha memória para esse dia, para a tranquilidade que vi no teu rosto, para a felicidade que senti por partires tranquilo, para a paz que senti gerar-se entre nós.
A Igreja de Miragaia acolheu-te e louvou-te na partida para o descanso merecido. Mas o essencial ficou em mim e nunca morrerá.
Hoje, como ontem e sempre, dou liberdade ao meu amor por ti…e sorrio.
As rasteiras da vida, das nossas vidas; os caminhos estreitos ou largos, por onde todos passamos; os momentos claros ou escuros que todos vivemos; as dimensões diferentes que temos ou damos em tantos momentos e memórias; os sorrisos e as lágrimas que alternam nos nossos rostos: nada disto nos desvia do único sentido condutor das nossas vidas – o amor!
Sabemos que seremos sempre um, até na unidade maior dos meus filhos e do meu neto.
Repara como está lindo o Rui; traiu-te um pouco, a ti que tanto gostavas que ele fosse boavisteiro, mas eu venci e fiz dele um portista empedernido. O Rui é o filho que eu sonhei e o filho-eu que sempre sonhei ser para ti.
Olha bem para o João Duarte. Olha, como eu, na essência mais pura daquilo que não se vê com os olhos. Está um reguila, cada dia mais bonito e mais traquina, digo eu que só o vejo com o coração.
Estaremos sempre juntos, na etérea existência que nos une. Tu e o Rui, eu e o João Duarte, nós e a Daniela, todos um.
Somos caminho. Somos Amor.
(vou terminar esta conversa, por agora. Distrai-me e deixei que os outros ouvissem o que te dizia. Prometo que vou voltar a falar contigo sem ninguém ver ou ouvir, como faço sempre. Até já, pai.)

Fernando Morgado