quarta-feira, 22 de março de 2017

MULHER

Vieram todos para ver a homenagem.
Trazem flores, sorrisos e compromissos.
Escondem as mãos que ontem bateram
e as línguas que usaram para os insultos.
São gente séria na torpe andança da aparência, ...
e dizem que a ignomínia não cabe na inocência.
…os maridos das outras são…
...ah, e tal e coisa, é o dia da mulher.

Vieram todos no arquétipo da perfeição.
Trazem perfume, testosterona e tesão,
cartão de crédito e a chave de um carrão.
Usam Gucci, Morato ou Zeza das feiras,
dressing apearance para foto de perfil.
Dizem que o futuro será de beijos mil
E discursam em ensaiadas boas maneiras.
…os maridos das outras são…
....ah, e tal e coisa, é o dia da mulher!
Pão e Paz, violência não!
Paz e Pão, desconsideração não!
Quando as mulheres despertarem…
os maridos das outras também não!
Tal e qual, hoje e sempre, a Mulher é o Dia!

(poema para ser lido todos os dias 9 de Março)

Fernando Morgado
UM MOSAICO MUITO ESPECIAL

Olá pai.

Não, não venho dizer-te que hoje é o “dia do pai” e etecetera e tal, até porque hoje é o dia do meu pai, como todos os dias são, e estou-me marimbando para o dia 1 de junho, teu aniversário, para o dia dos namorados, meu namorado eterno, para o dia 23 de Abril, quando nasceu o teu quarto filho, para o dia de páscoa, também fui a tua cruz, para o 10 de junho, S. João, Carnaval e, até mesmo, o dia de Natal: falo contigo todos os dias, e tu sabes como me conforta o nosso diálogo.
Já lá vão 12 anos - é verdade, o tempo passa a correr – em que te disse “Até já, pai. Espera por mim no paraíso do nosso abraço eterno.” E tu partiste para me abrires caminho, para me fazeres ver outros caminhos, para me guiares em algumas rasteiras da vida.
Há dias, abri um pequeno cofre antigo onde tu guardavas fragmentos de memória, fotos e outros papelinhos, facturas de mobília e de roupa, pequenas peças mudas que te diziam muito, e outras ninharias que foste acumulando; relógios, algumas peças de metal caro e o distintivo do teu Boavista.
Desta vez, quando o abri, encontrei só a chave do cofre em que te embalaram quando partiste, e muitos cartões que retirei das palmas de flores, ramos de flores, e muitas outras flores que te deixaram como quem deixa abraços e beijos e outros louvores.
“Os meus pêsames”, “Sentido pesar”, “Condolências” e outras clemências protocolares dos momentos de partida, remeteram a minha memória para esse dia, para a tranquilidade que vi no teu rosto, para a felicidade que senti por partires tranquilo, para a paz que senti gerar-se entre nós.
A Igreja de Miragaia acolheu-te e louvou-te na partida para o descanso merecido. Mas o essencial ficou em mim e nunca morrerá.
Hoje, como ontem e sempre, dou liberdade ao meu amor por ti…e sorrio.
As rasteiras da vida, das nossas vidas; os caminhos estreitos ou largos, por onde todos passamos; os momentos claros ou escuros que todos vivemos; as dimensões diferentes que temos ou damos em tantos momentos e memórias; os sorrisos e as lágrimas que alternam nos nossos rostos: nada disto nos desvia do único sentido condutor das nossas vidas – o amor!
Sabemos que seremos sempre um, até na unidade maior dos meus filhos e do meu neto.
Repara como está lindo o Rui; traiu-te um pouco, a ti que tanto gostavas que ele fosse boavisteiro, mas eu venci e fiz dele um portista empedernido. O Rui é o filho que eu sonhei e o filho-eu que sempre sonhei ser para ti.
Olha bem para o João Duarte. Olha, como eu, na essência mais pura daquilo que não se vê com os olhos. Está um reguila, cada dia mais bonito e mais traquina, digo eu que só o vejo com o coração.
Estaremos sempre juntos, na etérea existência que nos une. Tu e o Rui, eu e o João Duarte, nós e a Daniela, todos um.
Somos caminho. Somos Amor.
(vou terminar esta conversa, por agora. Distrai-me e deixei que os outros ouvissem o que te dizia. Prometo que vou voltar a falar contigo sem ninguém ver ou ouvir, como faço sempre. Até já, pai.)

Fernando Morgado

FELICIDADE

Deixo os meus pés em liberdade
neste ribeiro de afetos,
                                    mexo-os
como que contando as gotas que por eles passam
ou como quem toca piano ...
na orquestra afinada da passarada
                                                      em coro.
Há fragmentos de sol
por entre a sombra dos choupos
e dos castanheiros,
                               e ouço,
                                           ao longe,
o coaxar dos sapos
e a pissita dos estorninhos.
…… Tento acordar
antes que o corpo desperte
para a verdade,
mas continuo ali,
no útero de felicidade
que a natureza me oferece.
A imaterialidade também acontece
enquanto estamos
                             acordados
sempre que a mente se liberta
dos paradigmas e dos padrões
                             domesticados!
Só encontra
a paz
quem vê
e não quem
olha!


Fernando Morgado

DIA MUNDIAL DA POESIA

DIA MUNDIAL DA POESIA

Um slip no chão, um soutien que sobra,
uma cortina semiaberta, um lençol sem folhelho.
Um gato que foge....
Chegamos juntos a este aconchego.
Ficamos assim, em desassossego,
até que a noite se rendesse.
Vou semear primaveras,
e dizer ao sol que já demoram as andorinhas.
Vou abraçar-te no remanso deste rio
que em cachoeira nos lava, e nos dá o despudor.
Vou levar-te comigo nas asas de uma gaivota
até onde nasce o vento, na lura do pecador.
Orquídeas, rosas e lírios,
vou colhê-las para te enfeitar.
Vou dar-te jasmins e violetas - também gosto.
Mas agora, meu amor, neste quarto desarrumado,
quero ter-te num abraço beijado
e em acto consumado.
Ainda em pele, suados e ofegantes,
Vamos ver o nascer do sol.


Fernando Morgado
andamos muito ocupados com as mulheres
e o vinho
ainda sobra algum dinheiro...
dos juros puros dos duros
dinheiro não usado para o pagamento do champanhe e caviar
que se come no centro da Europa
eles estão aflitos
querem mais caviar,
querem um intestino mais asseado
eles
os homens das pernas grandes
daquelas que não precisam de passos maiores
porque as pernas deles são elas maiores
até o espírito está demasiado salgado
e notam-se muito os seinais da baba de camelo.
Dijsselbloem é nome feio para a louça das Caldas
os camelos morrem, sabias?
tolhe-os o buraco cada vez maior na turba noite em que nos guardam
aumenta em nós a clareza da inteligência
indígena
profana
subversiva
perigosa
a nuvem carregada com que cobriram os povos do sul
está a soltar-se
há os anti-ciclones
humores e horrores
os camones estão baralhados
e as multas?
tanto os incomodam
e as sanções?
tanto os divertem
as areias do sul podem ficar contaminadas
e os banhos de mar podem afogar
andamos muito ocupados com as mulheres e o vinho
o vinho que sobra aos excessos do champanhe
e as mulheres que fogem do caviar
as mulheres deles fogem para o sul
e as mães chegam a casa
com dinheiro fresco para gastar.
trocam-se dioptrias por disparatrias
e insultam-se as balas de más pontarias
as balas também fazem ricochete
mas se o intestino não estiver asseado
podemos morrer com o pivete.
andamos ocupados com estes filhos da puta
que continuam a ser poupados
pela mitigância da luta.
vós que lá do vosso império…
isto podre ficar sério!

Fernando Morgado

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL.


OS MEUS MOSAICOS – 31

É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL

O Porto, de há muitas décadas para cá, não tem uma tradição de corso carnavalesco como vemos por tantas cidades e vilas e aldeias e lugares e becos deste país em permanente disfarce.

Se a amestração visual e a tradição histórica nos levam para imagens mascaradas e travestidas, também é certo que a arte do engano e das metáforas jocosas e divertidas são o complemento obrigatória para qualquer “recado” que as escolas, transformadas em baterias, e os anonimados pelas máscaras querem manifestar sob a protecção do “ninguém leva a mal”.

Não foi este o carnaval que aprendi.

Miragaia era terra de muita gente e, mais ainda, de muita canalhada (termo carinhoso com que os miúdos eram tratados nesta terra). Havia muita diversão, sem que o dinheiro fosse importante para os festejos; simplesmente, não havia dinheiro – mas havia vontade, criatividade e alegria!

De um cartão qualquer, ou de uma cartolina (mais “fina” e cara), extraiamos uma máscara desenhada por cada um, cortada à medida e ao formato da cara, e pintada com giz ou carvão, por forma a ganhar uma careta medonha ou ridícula. Por vezes, completávamos os disfarces com erva politária, cordas e fios a fazer de cabelo, ou um chapéu ou lenço de cabelo (igual aos que as mulheres usavam para entrar na igreja) para que a identificação etária também se alterasse.

À canalhada juntavam-se jovens e adultos, à boleia da diversão que os pequenos provocavam, muito em função da inocência que a idade lhes dava. Era frequente ver os mais crescidos em formato “travesti”, munindo-se de tudo o que fosse possível para, assim, conseguirem as figuras mais fantásticas, abstractas e hilariantes como à quadra convinha.

Um fato velho (havia novos?), camisa e gravata – tudo encolhido ou diminuído por alinhavos, cordas ou elásticos -, eram surripiados aos pais para trajar a loucura. Ou, então, uma saia e uma blusa e um lenço e umas socas e um avental e um robe: tudo servia para amulherar os machos de todas as idades, tornando-os matrafonas de ralé; deliciosamente ridículos!

Alegria era coisa que não faltava. Sobrava, até, para os turistas de kodac que se acumulavam em cima das grades (só um miragaiense sabe o que isto quer dizer), capazes de fotografar as imagens mas nunca os sentimentos e os disfarces mentais que, sub-repticiamente, geravam tanta galhofa.

Em Miragaia, terra de apelidos e cognomes e alcunhas, havia imensos casos de pessoas a quem não se conhecia o nome próprio, tal era o uso do seu baptismo social, em função da família, da rua, da ocupação, da deformação, do tique, do cadastro e do curriculum (mai’nada!). A alcunha era, em si mesma, o primeiro e principal disfarce que as pessoas usavam. Pouco adiantava que alguém procurasse o Sr. António que morava em Monchique (aqui em Miragaia, claro) ou o Sr. António que morava no Cidral de Cima (também em Miragaia, claro); ou perguntavam pelo Tono-sem-nada e pelo António-corrico, ou ainda iam parar a Lisboa, onde morava o Sr. António…Salazar.

De repente, apetece-me imaginar um carnaval do meu tempo de menino e adolescente, do tempo das gentes do meu tempo. Deixo os olhos em corrupio pelo Largo da Praia, o Bento Peixoto, a Drogaria Moura, o parque, a Conquistadora e o largo das bicicletas; encho-os de gente com alcunha – disfarce do nome – e, em ressalva de culpa se alguém se importunar, incluo na festa o Poupiço, o Chico Mula, o LéLé, o Cinco-e-meia, o Muleta Negra, a Pata-rasa, a Tira-a-bicha, o Sucatas, a Pataca, o Tininho, o Eiga, o Regedor, o Sinhosinho-malta, o Olho-do-caco, o Caçoila, o Sucatas, a Maria dos pitos, o Sete-colhões, o Bacano, o ió-ió, o Maleiro, a Maria-pulga…grande farra, grande festa, grande alegria.

Era tanta a folia que logo se juntavam a ela o Migalhas, o Macaquinho, o Tirone, o Tareco, o Turra, o Marmitas, o Tipita, o Carolas, o Zé Lambão, o Olho-de-vidro, o Cabeça-de-martelo, o Cabanas, o Comidorme, o Mau-mau, o Sem-nada, o Gamelas; enfim, a festa era tanta com tanta gente que a fazia!

Por vezes, até o Pilas e o Jacaré, o Cachimbeiro e o Mama, o Gamelas e o Trincas, o Tonisca e o Unhacas, a Tendeira e a Bananeira, a Rabela e o Mini-saia, a Maria-preta e a Sardinha, o Tchuta e o Beira-alta, o Mata-carneiros e a Rancheira, o Moqueiro e o Zé-cavalo, o Rela e o Teimoso, também apareciam para a galhofa.

Para que a festa não se estrague e as ofensas não aconteçam, peço desculpa aos que citei abusivamente e aos que não citei inocentemente. Fica a imaginação de um carnaval possível num tempo em que também havia tempo para a folia.

Miragaia sempre foi uma terra de festas, de bailes, de rusgas, de ranchos, de encantos mil.

Pelo Carnaval todas as colectividades tinham o seu programa de festejos e de bailes. Era tempo de teatro no Grupo Musical de Miragaia e na Associação Recreativa e Desportiva de São Pedro de Miragaia - a arte de Talma na criação e recriação de encenadores e actores amadores…mas muito competentes. Salas cheias e sessões extras certificavam a qualidade dos nossos artistas.

Mas Carnaval sem dança não era Carnaval.

A Fnat, o Estrela-Praia, o Esperança, o Mira Clube, o Rancho, e outras colectividades mais, juntavam-se ao Miragaia e ao Musical, e em todas elas havia bailes; no sábado e no domingo anteriores ao Entrudo, na véspera e no dia do Carnaval e, no sábado seguinte, não podia faltar o Baile da Pinhata. Hoje, nada disto acontece, que eu saiba. Saudades.

Miragaia continua a viver de disfarces.

Temos hostels em quase todas as ruas, vielas, becos, escadas e pátios, e turistas amestrados, ávidos por um prédio em ruinas, uma janela ou varanda com roupa a secar (ainda), cães famintos e gatos de rua, mas já não levam na Kodac as crianças descalças e com ranheta no nariz.

Temos o Museu dos Descobrimentos, impróprio para a bolsa dos habitantes, e deles afastado por um escarro arquitectónico: um passadiço que leva e traz os turistas para o museu sem terem que pisar Miragaia.

Temos o Centro de Congressos, eternamente Alfândega para nós, hoje mais apêndice que órgão da freguesia.

E temos – dura lex sed lex – o mais ignóbil dos “proveitos” destes modernismos: o estacionamento caótico, selvagem e explosivo em todos os espaços possíveis. Autêntico detonador de uma qualquer tragédia futura quando for preciso o acesso a bombeiros ou outras emergências.

Desenganem-se os que pensam que eu alinho com os velhos do Restelo, no propósito de manter a cidade como esqueleto decadente, sem progresso ou evolução. Não, eu não quero a minha cidade e a minha freguesia paradas no tempo, à mercê da degradação e da marginalidade. Mas…tem que haver respeito por nós – moradores -, tem que haver regras para os investidores e proveitos para nós – moradores -, tem que haver cidade com gente dentro, com tripeiros genuínos - moradores. Somos nós os que fizemos, fazemos e faremos um Porto único e diferente, com adn e encanto próprios.

Nada me move contra a invasão de investimentos e de turistas. Não me oponho ao Centro de Congressos. Não me incomoda a proliferação de hostels e tascas franchisadas. Não desdenho da validade e actualidade e interesse do Museu dos Descobrimentos. O que eu pronuncio, e espero, é um crescimento estrutural e inclusivo, para que um dia não sejam os tripeiros desalojados a tirar fotografias aos turistas invasores.

O Porto está bonito. Cada vez gosto mais de ser tripeiro. Miragaia continua a ser o meu berço.

E viva o Carnaval! Ninguém leva a mal!

Fernando Morgado

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017


Cubro de noite os dias que passam sem o teu sorriso,

preciso dele para me esperançar.

Cubro de dia as noites que passas nos meus sonhos,

preciso deles para te ter.

Cubro de sol as neblinas densas em que te espero,

preciso querer-te para te ver.

Cubro de beijos os afetos que construo para te dar,

preciso deles para te desenhar.

Cubro de amor os olhos que guardo para te falar,

preciso deles para te amar.

Cubro de alegria os abraços e cocegas que imagino,

preciso adivinhar-te para me rir.

Cubro-te de aconchegos e estórias para te mimar,

preciso de tudo para te conquistar.

 

Ontem, beijarei os teus pés, os teus olhos e as tuas orelhas.

Amanhã beijei as tuas mãos, o teu rosto e o teu nariz.

Hoje serei porque fomos e seremos bons aselhas.

Não há tempo nem espaço que me impeça de ser feliz.

 

Neto rima com afeto.

beijo rima com desejo,

mas nem sempre sorriso rima com juízo

desde que o NÃO seja transgressão.

E o sonho sempre foi um transgressor.

E o sonho, o meu sonho, está prenhe de amor!

 

Fernando Morgado