sexta-feira, 12 de janeiro de 2018


Sei-vos descrentes e infiéis,
incapazes de se darem à partilha,
e senhores de verdades sem sentido.
Sois guerreiros, cibernautas fiéis.
Pertencem a esdrúxula matilha,
e julgam-se cada um ser mais merecido.
 
Não vos falo de castigo ou perdão,
nem sequer vos alvitro um caminho,
tão perdidos que estais no desvario.
Já nem vos motiva a revolução
que vos devolva a honra e o pergaminho
e faça da dignidade um desafio.
 
Fui menino na ilusão do não-pecado.
Fiz-me homem na luta pela redenção.
Deixei-vos divididos entre crentes e ateus.
Ao vosso mundo não sou chamado,
rejeitais a caridade e o perdão,
sois rebanho de corruptos e fariseus.
 
Eu sou Cristo, padroeiro das aflições
Sub-pele de certezas e convicções.
 
Fernando Morgado
Junho/2015

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018


Poema que um pai escreveu e enviou para um filho que não vê há 30 anos.

 

 

A Ana, a mais simpática de todas,

diz-me que ainda é tempo para nos voltarmos a ver.

Lembro-me da tua partida.

Deixaste tudo por uma paixão.

Querias viver.

Outras paixões deixaste, ainda mais intensas pela tua ausência.

Aquela despedida! Aquela despedida doeu muito!

A juventude não te deu amarras, nada te prendeu.

pensaste em ti.

Agora, assim a rapariga tenha razão,

vais encontrar-me igual – preso em ti.

Descansa, estou institucionalizado

- à tua espera há já longos anos.

A tua mãe levou com ela as orações que te imploravam.

Fiquei só...com esperança.

Os teus irmãos, que tanto te amavam,

foram ao encontro dela. Fiquei só...contigo.

Quero partir.

Não fosses tu e a esperança de ti,

não ouviria mais a rapariga acalmar-me

com loas de que te conhece e sabe que me vens ver.

Trás aquela blusa de linho que te dei quando fizeste trinta anos.

E trás amor para eu te reconhecer.

A minha mobilidade já é reduzida.

Sabes o meu nome? Continuam a chamar-me “alferes”.

Não demores.

Mantenho a mobilidade dos braços para te aconchegar.

A Ana chama-me avozinho.

 

Fernando Morgado

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018


4.

Vai em passos de ida
aquela mulher já cansada.
É uma vida sem volta,
a caminho do nada.
Vejo o seu corpo
e o seu olhar sisudo,
um ser humano vazio de tudo.
Toda ela trapos,
aqueles que veste
e os que leva na sacola.
Por isso lhe chamam
Maria Esmola.
 
FM

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

1.
É já madrugada
e os nossos corpos cansados
deitam-se, lado a lado,,
renovados...
para se quererem.

FM

2.
Desenho caminhos
por onde passo
com os teus passos.
Vou aonde me levares...
para te desenhar
outros mares.

FM

3.
Conduzo por entre
a nuvem que abraça a estrada
em que sigo.
O medo visita-me ...
em jeito de segredo:
não venhas cedo, meu amor.
Olha que se não chegares
será tarde demais.

FM

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

VIÚVA




Corre o bombeiro aflito
para fogo suspeito.
Leva na voz o grito
e a dor no peito.
Nesta terra-serra
de inverno-inferno,
morre a floresta inteira
na fúria da besta traiçoeira.
E depois do fogo
vem a neve matreira.
Mata a o espinafre e a beringela
e a cultura inteira.
Não há comida na mesa
Nem sopa na panela.
Fogo e neve,
a fome e a morte,
O diabo que os leve.
Há uma mão suspeita
na tragédia breve.
Há aflição e dor
por entre tanto queimor.
Há um povo aflito
e um bombeiro que grita.
Há um juiz que dita:
Liberte-se o suspeito.

 Fernando Morgado.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

O PODER


O poder é um veneno que nos acompanha desde que nascemos.

O primeiro choro, o primeiro sorriso, a primeira palavra, as primeiras façanhas que fomos conseguindo foram sempre convertidas em poder (muitas das vezes, de uma forma inconsciente).

Ao longo da vida, vamos acrescentando outras formas de domínio ao nosso caracter e comportamento.

Para os que pensam que o poder só é poder se for Poder; para os que acham que a autoridade é uma prerrogativa do dinheiro e da inteligência; para todos os entendidos em jogos palacianos do diz-que-disse: devemos estar atentos aos poderosos pequenos poderes e às teias esdrúxulas dos soldados rasos.

É o porteiro que dificulta a entrada; é o professor que engraça ou desgraça; é o sexo (não sei qual o sexo que é mais caro; se aquele que se paga ou aquele que é de graça) servido a conta-gotas na exacta medida dos proveitos; é o trabalho – o empregador que explora ou o trabalhador que trepa (o lambe-botas ou a mini-saia); é a guerra e a guerrilha (a bomba e o parafuso); é o boato e a coscuvilhice (ouvidos-megafone e palavras-bala): é a política e a oportunidade (o voto e a conveniência); é o velho rabugento e o corpinho de passerelle: tantos poderes!

Não há estátua que tenha relevo se não estiver alcandorada num pedestal maciço! A História dá-nos notícias imemoriais desta verdade. Não são só os bustos, os cavalos, os canhões e os heróis que preenchem estas expressões de poder. Ele também se manifesta nas cruzes e nas torres sineiras. Ele é visível na arquitetura e no urbanismo (não há coincidências).

O poder é a imagem que fica quando nos confrontamos com as pirâmides e outros triângulos que nos indicam e nos atraem para o cume, o alto, o sol, o olho – o grande olho -, e nos dimensionam na pequenez do que somos e no horizonte curto a que temos direito.

Como dizia Pessoa, “nós somos do tamanho daquilo que vemos, e não da nossa altura”.

Devemos caminhar. “Pedras no meu caminho? Junto-as todas, e delas farei o meu castelo!”

Devemos procurar a Luz. O Iluminismo representou uma época e criou um conceito de procura e de conquista. Os “Illuminati” ficaram para sempre, marcando toda a existência.

A Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade, Fraternidade – e o Dollar americano são exemplos contemporâneos da perpetuação do Poder.

Somos peões neste grande jogo de xadrez que é o Poder!

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

SUSPEITO



Corre o bombeiro aflito
para fogo suspeito.
Leva na voz o grito
e a dor no peito.
Nesta terra-serra
de inverno-inferno,
morre a floresta inteira
na fúria da besta traiçoeira.
E depois do fogo
vem a neve matreira.
Mata a o espinafre e a beringela
e a cultura inteira.
Não há comida na mesa
Nem sopa na panela.
Fogo e neve,
a fome e a morte,
O diabo que os leve.
Há uma mão suspeita
na tragédia breve.
Há aflição e dor
por entre tanto queimor.
Há um povo aflito
e um bombeiro que grita.
Há um juiz que dita:
Liberte-se o suspeito.

 Fernando Morgado.