sexta-feira, 26 de maio de 2017

ESTRELA DA VIDA


ESTRELA DA VIDA

 

Foi a noite mais longa de todas as noites que me aconteceu

 Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu enoitecia

 Era noite, tão noite, que a notícia tardando-lhe o rosto esmorecia.

 Quando à boca da aurora surgiste na manhã qual rosa tardia

 Quando eu te olhei, perdi-me no beijo que a minha boca guardava

 E na vida ficámos, unidos, ardendo na luz que nos iluminava

 Em nós dois nessa aurora em que tanto tardaste o sol amanhecia

 Foste sonho de mais para haver outras noites, para haver outros dias.

 

 Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram

 Dos nocturnos silêncios que à noite de ansiedade e beijos se encheram

 Foi a noite em que os nossos destinos sonhados se enamoraram

 E da estrada mais linda da vida uma festa de fogo fizeram.

 Foram dias e tardes que numa só noite nos aconteceram

 Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam

 Era a noite mais clara daqueles que à noite se deram

 E entre os braços da noite, de tanto se amarem, vivendo crwsceram.

 

        Meu amor, meu amor

        Minha estrela da vida

        Que o luar te amanheça

        E o meu rosto te siga.

        Meu amor, meu amor

        Eu tenho a certeza

        Que tu és a alegria

        Que tu és a beleza.

        Meu amor, meu amor

        Eu tenho a certeza!

 

 Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso se é pranto

 É por ti que adormeço e acordado recordo no canto

 Essa noite em que tarde surgiste dum alegre e profundo recanto

 Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

 Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!

 

Recriação do belíssimo poema de Ary dos Santos, poeta que eu adoro, in 'As Palavras das Cantigas'

(em celebração de mais um aniversário da minha filha)


quarta-feira, 26 de abril de 2017

Desafio Rádio Sim nº 46
 
#77palavras
O nosso texto para este desafio tem 12 palavras obrigatórias.
Mas, cuidado, as regras são diabólicas, leiam com atenção!
Não podem escrever mais do que 6 palavras livres entre duas obrigatórias, mesmo mudando de frase.
(podem ser menos e, no fim, ficam à vontade)...
Por exemplo:
Eras um tolo, segurando aquele trevo como se fosse possível salvar-te daquela polémica. Tão tolo que nem te imaginaste preso........

Aqui estão elas:
 
PRESO -   LUZ -   CONFUSÃO -   MUDANÇA -   SABER -   POLÉMICA

PISADO -   NESGACORAÇÃOJUNTANDO - TREVO - SIMPLES

Dou-vos liberdade na ordem, mas só podem ser alteradas em género e número (mudar entre feminino/masculino e singular/plural).

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O MEU TRABALHO:

"Partiu!

As luzes apagaram assim que a confusão se instalou. O que parecia simples tornou-se polémico. Mesmo para um coração pisado, e preso a um trevo mentiroso, aquela mudança era dolorosa.

Naquela nesga de amor – ilusão –, juntando tudo o que não queria saber, percebeu a solidão das suas esperanças.

A quem muda Deus ajuda, pensou para si. Não lhe interessava mais ouvir as suas mentiras; também ela estava disposta, finalmente, a ter um namorado a sério.

Partiu!

Fernando Morgado, Porto.

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Passou na RÁDIO SIM no dia 6 de Março de 2017

http://radiosim.sapo.pt/Detalhe.aspx?fid=1374&did=43687&FolderID=1271


#opramimaler

segunda-feira, 24 de abril de 2017

O teu primeiro aniversário.


Os dias correm na velocidade contrária aquilo que queremos.

Há um ano atrás, contava os dias na esperança de que nascesses no dia do meu aniversário. Não sei porque destino, porque caminhos, porque vontades, até podias ter nascido no Dia Internacional do Livro mas, nas voltas do vira, nasceste no Dia Internacional da Dança.

Ainda bem. Porque bem, bem mesmo, foi teres nascido; teres nascido perfeito, com saúde, e com a beleza imensa que nenhuma outra há igual - aos meus olhos!

O tempo, em modo matemática de dias e horas, não se acomoda aos nossos desejos. Quero que o meu tempo passe devagar; não porque quero viver eternamente, mas porque quero ter tempo para te abraçar, para – olhos nos olhos – poder dizer-te: eu sou o teu avô. Já alguém te disse isto?

Ou então, quero que o tempo passe depressa para te ver homem. Até tu, daqui a tempos, vais querer chegar mais depressa ao tempo da escola, ao tempo da universidade, ao tempo do namoro, ao tempo do trabalho, ao tempo em que poderás, por ti, controlar o teu tempo.

Disse esta frase, na banalidade que lhe pertence, muitas vezes: o tempo tudo cura! E não é que agora acredito mesmo nisso? Um dia, os sins e os nãos que valem mesmo a pena serão aqueles que saírem da tua boca, do teu pensamento, das tuas opções.

Vais fazer um ano! Vão-te celebrar com alegria, com paixão, com desejos e sonhos. Talvez, até, te celebrem com água benta. Vão dançar o Hino da Alegria para pedir proteção e saúde, prosperidade e sorte. Vão dançar…porque é o teu dia. O Dia Internacional da Dança.

Também eu te celebrarei. Apaixonado.

Somos do mesmo signo - Touro. Eu de 23 e tu de 29. Abril é mês de liberdade. És o cravo vermelho dos meus sonhos.

Sábado à tarde, e num passo de magia, mal a vela se acenda, ficarei em alegria. Sábado à tarde, será uma tarde bonita, tarde que sendo infinita, caberá toda na minha ilusão.

Sábado à tarde, estarei onde estiveres, porque o sonho não aceita que lhe domem os poderes.

Estarás sempre nos meus caminhos, porque os meus melhores caminhos são desenhados pelo sonho.

Sábado à tarde…

 

Fernando Morgado

segunda-feira, 17 de abril de 2017

 
 
OS MEUS MOSAICOS – 32
 
 
A MINHA VARANDA, DE NOVO.
 
Vou até à varanda e por ali me deixo ficar por largos minutos.
Os meus olhos percorrem a paisagem; procuram primavera.
Deixo-me em pensamentos, em restolho de memória, e fico naquele balanço que me dá aquilo que vejo e aquilo que recordo: na mesma paisagem, nos mesmos sítios.
Desde logo, a Rua de Tomás Gonzaga, onde moro, antes sem casas devolutas e com a alma que lhe dava o bulício de tanta gente, a roupa a secar em cada janela ou varanda, o pequeno comércio, a ausência de carros estacionados, a miudagem em algazarra por tudo e por tudo e agora…
Hoje, esta rua exagera no sossego e no silêncio. Os naturais foram desaparecendo, pela morte ou pela vida, as casas ficaram desabitadas ou abandonadas, as crianças já não brincam nem gritam – não as há, e as poucas que há estão recolhidas em casa a desenvolver conteúdos informáticos ou multimédia para construção de futuros modernos.
Os meus olhos percorrem a rua; procuram vida.
Lá ao fundo, a Igreja à direita e o parque infantil à esquerda; havia, mas já não há. Que eu saiba (estarei errado?), Miragaia não tem espaços públicos para entretenimento e lazer das suas crianças e adolescentes. Este é um facto comum a outras freguesias (arranha-me o termo “união de freguesias”).
Hoje, é tema de discussão o número de agências da Caixa Geral de Depósitos que vão fechar em todo o país. Hoje, já não é discussão o número de equipamentos urbanos que se foram perdendo ao longo das últimas décadas. Dantes tínhamos o dinamismo da banca…hoje temos o amorfismo das freguesias.
Lá ao fundo, a igreja, à direita. Já houve um tempo em que via esta igreja à esquerda. No tempo em que a pastoral católica, aproveitando a agregação pela Fé, se empenhava numa liturgia profundamente social.
Ali fui baptizado, ali fiz a catequese, ali fiz a primeira e segunda comunhões. Ali cresci até ao casamento que, não por acaso, não foi ali mas foi em Miragaia. Ali me quiseram cordeiro, ali me desengraçou a pele.
Hoje, a igreja de Miragaia é comum ao declínio da Fé e da esperança, embora eu tenha ouvido referência elogiosas à pastoral do Padre Renato, actual prior.
Os meus olhos procuram a Fé; percorrem a dúvida.
O rio Douro está bonito. Vejo-o desde o Cais de Gaia até Lordelo e ressaltam-me diferentes texturas. A cor da água e a corrente não mudaram; as margens são as mesmas; as marés continuam como sempre, enchente, vazante e preia-mar – exclusivamente dependentes de factores astrológicos, cúmplices do namoro entre o Sol e a Lua.
Onde ontem só se viam as ossaturas decrépitas de muitas barcaças, outras ainda em uso efémero, alguns caíques e pequenos barcos de pesca à linha, hoje pululam outros géneros de embarcações.
Em movimento formigueiro, meia dúzia de “river sightseeing” cumprem a ilusão de mostrar o Porto nas suas margens. Por entre eles, emerge imponente o “Douro Cruiser” de grande calado e outras mordomias. Ao longe, sob o arco da Ponte da Arrábida, uma mão cheia de cascas de noz à vela – chamam-lhes optimist – serpenteiam entre eles o colorido das suas velas. Mais ao longe, na Afurada escondida numa curva de rio, estão em descanso, ou em manutenção, os barcos de pesca: parideiros de fartura ou fome, de alívio ou viuvez, mas sempre em faina dura, muito dura!
Os meus olhos percorrem o tempo: procuram remos.
Volto à varanda, de onde ainda não saí, para me sentir em viagem.
Aos meus olhos, o casario de Gaia – Vila Nova é mais acima – e a predominância das caves. Onde havia campos há casas, e onde havia casas há ruinas. Os néones do “port wine” mantêm-se e os grafitis vão tomando conta de espaços sem guardador. Alguns palácios e solares ganharam melhor estética com o advento do turismo massivo. Outros prédios são pasto da bolha hosteleira.
Não, não sou contra a dinâmica turística actual. Gosto que vejam aquilo que amo – o meu Porto -, mas já há conhecimento adquirido do que aconteceu em outras paragens deste planeta. Aprender o bom não faz mal a ninguém!
Repasto o olhar no Cais de Gaia, outrora cais de estiva e hoje um peculiar estaleiro de restaurantes falentes. Encerram uns e reabrem outros em sacrifício da qualidade.
Vejo o Convento de Corpus Christi, aonde levava algumas peças de linho para engomar, ou ia comprar snacks salgados e doces para uma qualquer confraternização. As raparigas de maus costumes, ali carceradas em tutoria, faziam estes trabalhos “voluntariamente”
Este Convento foi lugar de oração, passou a prisão e agora é órgão da câmara. É também uma montra de cultura. Ainda bem.
Os meus olhos percorrem as caves: procuram sabores.
Os barcos continuam em labor, o sol já se está a por, e eu continuo na varanda. Não consigo encurtar palavras para continuar a descrever o que vejo, o que penso, o que sinto. As gaivotas, sempre no meu horizonte em qualquer olhar meu, fazem-me companhia e testemunham a minha crónica. As pombas perfilam-se no telhado em frente, à espera que a ração lhes seja dada. E os gatos são os de sempre, como fotocópias dos que conheço desde que nasci. O Gugu, príncipe da casa, espera por mim no sofá; senhor do seu nariz, acha que a casa é dele, e é ele que me deixa habitá-la. Os gatos!
Voltarei aqui para vos falar da Alfândega e do Largo, de Monchique e das Sereias, dos telhados e das clarabóias, dos ratos e dos gatos, outra vez. Esta varanda é imensa.
Os meus olhos percorrem as casas: procuram afectos!
 
Fernando Morgado