segunda-feira, 29 de agosto de 2016


Olá Dudu.

És tão pequenino mas tão grande para tudo o que eu quero guardar em ti. Vais crescer, vais caminhar e, mais que caminhar, vais fazer os teus caminhos.

Tantas vezes vais pensar que caminhas sozinho mas, avisadamente, descobrirás que alguns passos teus alguém os deu por ti.

Um dia, vês um musgo numa rocha e apressas-te a fotografar; eu já andei nesse caminho.

 Entre o nascer e o por do sol, ou entre o nascer e o por da lua, ficarás encantado com as sombras que esses astro produzem ou com as claridades que ambos projectam; eu já tive esses olhares.

Não saberás o que é tremer em frente a uma folha A4, na hesitação das palavras que não saem. Já não se usará. Mas saberás teclar e googlar, facebookar e abreviar – pk qq qd tb nd, e mais não sei quê -, e sentirás um jorro de palavras que se agrupam em texto; eu já escrevi esses medos.

Hoje, na distância longa dos teus primeiros 123 dias de vida, é mais um dia em que cresces sedimentado no meu ADN. Não te livras de mim, e eu fico feliz!

Vê bem, 123 dias, 123, 1 2 3 – é assim que tanta coisa começa. Vais ouvir isto muitas vezes: vá lá, Dudu, força, vamos…um…dois…três…conseguiste!

Estou aqui, prazerosamente sentado, a deliciar-me com a beleza de um pisco-de-peito-azul que se acoitou no meio dos guarda-rios, na companhia de umas aves pernaltas que não identifico. Do lado de lá, com a Foz nos meus olhos, espalma-se o meu Porto entre o rio e o mar.

Havemos de vir a esta paz, a todas as pazes que já desenhei para as partilhar contigo.

Não sei se a cegonha branca que vive no Parque Biológico de Avintes já teve os seus filhotes. Sabes que a malandra, munida dos truques de toda a sua beleza, enfeitiçou um macho selvagem a meio da migração que o levava para o sul e cativou-o em copulação fecunda.

Os filhotes da cegonha não vieram de Paris, e ela, de tão ocupada que estava, também não foi a Paris buscar-te. Possivelmente, tu e os filhos da pernalta nasceram ao mesmo tempo. Devem ser bonitos, os passarocos, tal como os seus progenitores. Também tu és muito bonito!

És fantasticamente bonito! Tal como os teus progenitores e os progenitores dos teus progenitores e os progenitores dos progenitores dos teus progenitores.

És fantasticamente bonito! Não tens os caracóis que eu tenho, a minha cor de olhos, o meu prognatismo, as orelhas grandes que deixei crescer para te ouvir melhor, as minhas mãos…

És fantasticamente bonito. Se um dia te perguntarem em que é que tu és parecido comigo, saberás responder que o essencial não se vê com os olhos.

Olha! O pisco-de-peito-azul olhou para mim! Saltitou meia dúzia de passos, pavoneou-se no azul do seu peito – o azul, claro! – e disse-me um segredo:

“Nunca cales as palavras que o teu coração te dita. Diz ao teu neto que o amas muito!”

Ouviste, Dudu?

O teu avô ama-te muito!

Um…dois…três…um beijo para ti!

 

Fernando Morgado, avô.

terça-feira, 9 de agosto de 2016


(Este texto lê-se em 5 minutos. Vocês conseguem?)

MOSAICOS DA MINHA VIDA – 8

OS MEUS CRAQUES DA BOLA.

Isto de parecenças tem muito que se lhe diga. Há quem tenha os olhos do pai, a boca da mãe, os pezinhos iguais à tia mais nova, e as orelhas da bisavó que nunca conhecerá. Questões do ADN, dizem.
Comigo nada disso foi diferente. Tenho o meu corpo retalhado em parecenças, bem ao jeito de um mapa morfológico da minha família. Mesmo assim, acho que não sou parecido com ninguém!

Mas se podemos ver e confirmar os diferentes aspectos exteriores, já mais difícil se torna perscrutar os recônditos caminhos da alma e seus afilhados: o feitio, os gostos, o carácter, as opções e as decisões. 
Tanta lengalenga para me confessar plenamente adnizado pelo meu avô Alexandre no que concerne ao meu clube: portista empedernido. Portista um dia, portista até morrer!

O Porto é uma naçom, cara..o!
P
or esta razão, mais admiro o meu pai – boavisteiro de um só clube – por nunca ter hostilizado a minha escolha; bem pelo contrário, ensinou-me a gostar, também, do Boavista. Ainda hoje.

Sofri aquele tempo imaculado da “verdade desportiva” enquanto o FCPorto não ganhou título nenhum. Nessa altura só havia supermercados em Lisboa, e era lá que se comprava tudo e todos.
Miragaia era uma terra de gente que se conhecia – para o bem e para o mal -, e onde os benfiquistas se notavam pela diferença. Lembro-me de alguns: na família Correia Dias ninguém se aproveitava (ahahahahahah). Vocês sabem que eu sei que vocês sabem de quem eu estou a falar! Bom, passemos à frente, que o que interessa para a ementa de hoje é mesmo o Mundial de 1966, o célebre campeonato em que Portugal ficou em 3º lugar por trapacice da nossa aliada Inglaterra. Não havia islandeses nessa altura.  ;)

Em 1966 pouca gente tinha televisão em Miragaia. Sei que as colectividades eram dos poucos locais onde se podiam ver os jogos da nossa seleção. Mas tinha um senão: de borla, só os sócios e seus familiares. Não era o meu caso. Na minha família todos eram sócios do Musical, que também tinha televisão mas…era muito longe da Quinta do Loureiro. Naquele tempo, o Musical ocupava-se mais com o teatro e com a música. Naquele tempo! Devo referir também a excelente actividade teatral do Miragaia; quem não se lembra do Neca e da Toninha, por exemplo.
O Miragaia, ainda na primeira sede na Rua de S. Pedro de Miragaia, tinha televisão, mas os que não eram sócios tinham que pagar 1$00 (um escudo) para poderem assistir ao jogo. Era o meu caso.

Se vos parece ridículo este valor, devo dizer-vos que nessa altura era uma verba significativa, suficiente para comprar pão e leite, ou até meio quartilho de vinho. Por isso, dispor de um escudo para ver a seleção era já uma loucura. O meu pai fazia esse sacrifício por mim…e pelo meu irmão Zé e pelo meu irmão Raul. Ora aí está, eram três escudos.

Já nessa altura o Sr. Tavares (polícia) e a D. Felicidade, pais do Bino (que jogou no Porto), tinham televisão. Vimos alguns jogos em casa deles, e assim se minorou o dispêndio do Mundial de 1966.
Muitos se lembram dos grandes jogadores que fizeram parte dessa equipa. Que me desculpem os blá-blá-blá que só se lembram do Eusébio, do Coluna, do Simões, do Hilário, do José Augusto e outros tantos que frequentavam os supermercados de Lisboa J . Eu nunca esquecerei os três bravos jogadores que, também, estiveram em Inglaterra: o Festas, o Américo e o Custódio Pinto. O Sr. Otto Glória convocou-os só para sossegar o povo da Invicta? À excepção do Festa, utilizado num dos jogos, os outros dois não tiveram um minuto de participação. Lembro que nesse Mundial não eram permitidas substituições. Pouco me importa!

Ainda fedelho, e pela mão do meu avô, ia ao Estádio das Antas e já eu me engalfinhava pelo azul-e-branco. Quando não ia com ele, entrava agarrado ao casaco de um qualquer adulto – Ó meu senhor, ó meu senhor, deixe-me entrar consigo. Anda lá rapaz, até te levo ao colo se for preciso.

Para nós, putos da terra batida (ou pedras da rua) e da bola de trapos, ser jogador federado era razão suficiente para ser herói. Miragaia também os tinha.
Orgulhava-me com o Canário, o Zeferino, o Machado, o Monteiro, o Xico de Monchique, o Tena, o Abílio, o Carlos Santos, o Sousa, o Zé Dias, o Simões, o Correia Dias, o Carlos Alberto, o Xico guarda-redes e tantos, tantos outros.

Que me desculpem aqueles de quem me vou esquecer, mas devo mencionar os grandíssimos atletas da minha geração e a quem faltou a tal estrelinha para singrarem. Refiro, a eito, o Quim (Libório para sempre), o irmão dele o Toninho Dias, o Berto Perdigão, que já partiu, precocemente, o Rui, o Marcilio, o Tó e, claro, o Bino Tavares, jogador do FCPorto, meu amigo de infância e de escola, que acompanhei nos vários clubes por onde passou.
Hoje, estamos em pleno Europeu de 2016. Portugal ainda lá está, para falhar penaltis ou marcar golos de calcanhar, mas é tão estranho ver os convocados e encontrar um só atleta do meu clube, o Danilo.

Já não é o que era. Já não se paga 1$00 para ver os jogos-. Consomem-se muitos copos de cerveja, cachecóis e outro merchandising nas FUN ZONES espalhadas pela cidade, e dizemos que vamos ser campeões.

Para mim, os grandes campeões foram os meus ídolos de Miragaia, que me encantavam com as habilidades técnicas, com a entrega ao jogo, com a resistência e adaptação ao piso, com a leveza do pé descalço a tratar a bola com minúcia de mão e a astúcia para fugir ao polícia quando o grito aparecia:

Olh’á bófia!

Fernando Morgado.


(este texto demora 4 minutos a ler)

MOSAICOS DA MINHA VIDA - 7

Não quero escrever a História de Miragaia, nem contrariar ou acrescentar qualquer coisa que seja à arte dos historiadores convencionais. Devo dizer, contudo, que a génese da História é sempre a versão do vencedor. Por isso, ela é tão relativa.
Não é o caso. O meu propósito é criar MOSAICOS – estórias com pessoas dentro – e, com eles, dar maior expressão ao painel de orgulho pela terra onde nasci, vivi e ainda moro: Miragaia.

Não tenho acompanhado a vida real do Centro Social de Miragaia nos últimos anos. Parece-me, contudo, que continua a ser uma instituição bem enraizada na freguesia, e a justificar um interesse enorme pelos serviços que põe à disposição dos moradores.
Volto a ele; aos princípios do Centro (período que melhor conheço) e aos passos difíceis que foram dados para que se tornasse uma realidade.

O governo da época, anterior ao 25 de Abril, era parco em recursos para acções de beneficência ou apoio social às populações mais carenciadas. Recordo que 40% dos recursos financeiros do país eram canalizados para a Guerra Colonial, onde morreram mais de 40 jovens de Miragaia e muitos mais voltaram com deformações físicas e psicológicas.
Esta mesma guerra, antes de nos matar os jovens matava a estabilidade familiar e aumentava a pobreza, também por via de menos um salário que cada soldado deixava de ganhar enquanto estivesse “ao serviço da Nação”.

Neste contexto – muito mais complexo do que este texto pode comportar -, arranjar dinheiro para a construção e desenvolvimento do Centro Social de Miragaia foi tarefa hercúlea e só possível por via da imaginação e da dedicação.
Já abordei, ligeiramente, a campanha do “OVO E GARRAFA”. A ela voltarei.

Lembrei-me da Esplanada do ZIP-ZIP que existiu, durante anos, no Largo da Alfândega.
Porquê esta esplanada e porquê este nome? Lá irei.

Já em tempo de “primavera marcelista”, aparece na televisão um programa de grande sucesso que prende aos écrans muitas portuguesas/es, de todas as classes e gerações: o ZIP-ZIP.
Como é da memória de muitos, este programa afrontou e assustou a censura do regime; pela irreverência, pela horizontalidade dos seus participantes e convidados e pela diversidade de temas que abordava e como abordava.

O célebre programa do Carlos Cruz, do Fialho Gouveia e do enorme Raul Solnado.
Às segundas-feiras, à noite, era dia santo para a RTP: o ZIP-ZIP estava no ar.

O Centro Social de Miragaia, como disse atrás, precisava de dinheiro. Achamos que a melhor forma de o conseguir era através de iniciativas que envolvessem os miragaienses. Uma esplanada, com serviço de café e cervejaria, foi a ideia que iluminou as necessidades latentes.
Lembro que, na época, as colectividades não viram com bons olhos esta concorrência: os preços eram mais baixos, o local muito aprazível e oferecia a “democracia” de todos poderem aceder a ela. Não era fácil uma “senhora” entrar, sem julgamento público, na sala de fumo e jogo das nossas colectividades; o Miragaia, o Musical, o Estrela e a FNAT.

A linha de pensamento foi bem clara: uma parte significativa da população era frequentadora diária das colectividades, onde se aliviava de alguns trocos nos “baratos”, nos copos, nos cafés e nos tacos. Era essa verba, por pequena que fosse, que o Centro queria atrair como receita sua.
O ZIP-ZIP tornou-se o local de encontro e convívio de toda a população. A fazer lembrar o dito programa de televisão, o ZIP-ZIP. O espaço era amplo e aberto, funcionava até à meia-noite (oficialmente…) e permitia o acesso a crianças e adolescentes. Toda a gente lá tinha aceitação.

Esta esplanada deixava um lucro ainda significativo para o Centro Social de Miragaia. Para isso, contava com ajudas directas e discretas, umas conhecidas e outras anónimas, de vários benfeitores ou apoiantes.
O presidente do Centro, Mário Lereno, era director da CUFP e conseguia vantagens significativas no fornecimento de cerveja; o Sr. Mendes (precocemente falecido) era dono de uma confeitaria na Rua do Vale Formoso e disponibilizava ajudas elevadas no fornecimento de bolos, queijo e fiambre, e outros ingredientes necessários à cozinha da esplanada. As louças também nos chegavam por doação. As restantes necessidades eram, também, favoravelmente negociadas.

Assim, pulso a pulso, passo a passo, numa grande corrente de pessoas que fizeram questão de ajudar, o Centro Social foi capaz de contornar os “nãos” das instituições governamentais.
Se eu quisesse juntar a este texto alguns nomes, muitos nomes, das pessoas que estão dentro desta estória, seria, com toda a certeza, profundamente injusto com muitos mais de quem me iria esquecer.

Fica a memória – um retrato de época – do que foi a epopeia do nascimento do Centro Social de Miragaia.

Fica a promessa de outras estórias, tão ao gosto dos leitores destes MOSAICOS.
 
Fernando Morgado


MOSAICOS DA MINHA VIDA - 6

Não sou envergonhadamente católico. Não sou modernamente anticristo. Digo-me católico, por convicção, sem esperar encontrar Deus na igreja mais próxima, mas antes guardá-lo e cuidá-lo bem, dentro de mim.
Há um género de modernismo que faz de nós anormais quando dizemos que somos católicos e acreditamos em Deus. Para alguns, ser católico é ser palerma. Para alguns, ser ateu é ser esclarecido, moderno, intelectualmente superior.

É desta gente, os modernos, que aparecem os aflitos, a implorar “valha-me Deus” e “Deus me acuda”.
Vem isto a propósito de Miragaia, das suas gentes e da sua igreja. Vem isto a propósito de eu ter sido chamado de “papa-missas” só porque me dava bem com o padre embora fosse refractário à liturgia.

Por volta dos meus quinze-dezasseis anos, aparece em Miragaia um padre novo que veio, naquela época, revolucionar a freguesia. Tinha vinte e oito anos, trazia romantismo e ilusão suficientes para julgar que seria um bom pastor para o rebanho miragaiense. E foi.
O Afonso Moreira da Rocha, vulgo Padre Afonso, percebeu depressa a dificuldade de catequizar um povo prenhe de muitas carências, e pouco dado a promessas e a boas maneiras. Assim, foi suficientemente inteligente para dinamizar a Fé acenando à população com novas ferramentas de pensamento e acção.

Menos ave-marias e mais pão, menos pai-nossos e mais saúde, menos credos e melhor habitação, menos terços e mais trabalho, menos salve-rainhas e mais direitos: tudo isto se transformou na enxada de trabalho de uma jovem, Padre Afonso, que passou a acreditar numa crença maior, numa Fé mais abrangente, numa pastoral com novas prioridades.
Miragaia foi a trincheira que escolheu para a sua luta contra o Poder da época; valeu-lhe algumas prisões mas não lhe quebrou a convicção e força. A Pide-Dgs não lhe dava muito espaço de acção, não lhe dava muito espaço na cela onde onde, várias vezes, o encarcerou. Por contágio de acção, também eu tive ficha na polícia politica.

Foi esta dinâmica, esta consciência, esta alavanca de luta que me aproximaram da igreja de Miragaia e da fidelidade a um padre em quem passei a acreditar. Este homem fantástico foi também extraordinariamente importante para o meu crescimento e formação, como homem capaz e consciente, abrindo-me horizontes para os novos tempos da política na sociedade portuguesa.
Das muitas coisas que guardo na memória em relação a esse tempo pastoral do Padre Afonso, não posso contornar uma célebre acção de recolha de fundos para o lançamento da obra do Centro Social da Paróquia de Miragaia: a famosa campanha do “OVO E GARRAFA”.

O Centro Social de Miragaia, como vulgarmente é conhecido, foi avante. Foram tempos heroicos. Foram tempos maravilhosos.
Com 17 anos, fiz parte da primeira direcção deste Centro Social. O Mario Lereno , na altura director de Recursos Humanos na Companhia União Fabril Portuense (hoje, SUPERBOCK), foi o presidente dessa direção. Um homem monárquico marcelista, como ele se dizia e que eu nunca entendi o que era. O Padre Afonso foi vice-presidente (nunca quis o sobressaliente primeiro lugar, mas nunca o libertaram da liderança), um homem que trouxe a política para a igreja, com o pensamento de que a consciência era uma arma incómoda ao Poder. Eu assumi o cargo de Secretário de direcção: já me estava destinada a escrita. O Óscar Brandão foi Vogal: durante muitos anos, foi um homem muito empenhado nas causas de Miragaia. Havia, ainda, dois elementos de Massarelos; o Juca e o Sr. Ferreira – gente boa.

Como se percebe do que aqui vos deixo, do muito que vos conto fico tanto mais por dizer. Passo a passo lá irei. Gosto deste diálogo silencioso entre mim e quem me lê.
 
Fernando Morgado

MOSAICOS DA MINHA VIDA – 5

No Porto, quando alguém diz que nasceu ou mora na Rua dos Armazéns, nº 55 casa 26, está a falar de uma “ilha”…e o Porto tem tantas destas ilhas, ainda.

Ora, esta morada, acima referida, é exactamente o sítio onde nasci e cresci – na Quinta do Loureiro. Em Miragaia, claro.

Pouca gente desta freguesia não saberá onde fica a ilha da Quinta do Loureiro. O que nem tantos saberão é a origem deste nome – Loureiro.

Ao longo dos anos, e em pesquisas que faço para as minhas escritas, tenho encontrado as mais diversas versões para este nome, mas a única a que dou credibilidade é à que nasce no Jardineiro-Mor José Marques Loureiro, o “jardineiro das Virtudes” como vulgarmente era conhecido.

Este homem, com fama já granjeada na Beira-Alta, veio para o Porto a convite da Câmara da cidade, e deram-lhe a incumbência de criar novos jardins na urbe, melhorar os existentes e fornecer a Câmara e a Corte com as suas belas flores e plantas.

Para esse fim, concederam-lhe umas terras em socalcos na encosta das Virtudes e que desciam até à praia, então existente.

A tarefa era árdua e exigente. A cidade estava em plena época de industrialização, logo, em grande crescimento, mas faltava mão-de-obra para levar em frente este projecto.

José Marques Loureiro cria as condições necessária para a sua tarefa, constrói a Casa das Virtudes – hoje, Cooperativa Artística Árvore -, e dá início ao que ainda hoje se chama Jardim das Virtudes. Convém lembrar que em Miragaia todos o conhecem, simplesmente, pelo Horto.

José Marques Loureiro está imortalizado por uma estátua – a Flora – no Jardim da Cordoaria.

Sabemos todos, os que cá nasceram e viveram, as lendas e mitos que se contavam deste Horto: desde almas que apareciam pela calada da noite, caveiras luminosas que assombravam os vivos, até outras maleitas que desciam pelo Rio Frio que corre subtérreo pela Rua de S. Pedro de Miragaia até ao Rio Douro. Creio, sem certezas, ser este o mesmo rio que serve de cenário no Museu dos Descobrimento, a descoberta mais recente do Sr. Mário Ferreira, vulgo DouroAzul.

Voltando a José Marques Loureiro e à Quinta que tem o seu nome: como disse, este espaço não é mais que uma ilha, das muitas que há no Porto. A sua origem deve-se à necessidade que o Sr. José Marques Loureiro teve de contratar gente para a sua actividade e não haver na cidade a mão-de-obra que ele precisava.

Vieram pessoas de fora, da ruralidade, para desempenharem essas tarefas. Para isso, era necessário dar-lhes habitação e condições. Foi o que fez o mestre jardineiro construindo vários prédios, ainda hoje existentes, com uma só entrada: o nº 55 da Rua dos Armazéns – a Quinta do Loureiro.

Na Casa 26, nasci eu e os meus irmãos, e tanta gente que Miragaia não esquece.

Voltarei à Quinta para vos deliciar com tantas estórias lá vividas. Lembro-vos - quem não se lembra? – os Correia Dias (Libório, Toninho, Zé…), a Maria Preta e o Deolindo, o Bolinhas e a Tira-a-bicha (a rosa, a Zeza, o Fernando…), o Unhancas, os Palavrinhas, a Alcininha (talhava tudo o que era doença ruim), o Adão (a filha Luísa que morreu tão nova com cancro da mama), o Tchuta e o Beira-Alta, as Rabelas, a Tendeira (lembro o meu amigo Zé Manel Preto), o Virgílio (tio dos Rubins), o Jacinto sapateiro, o Fernando francês, o Vicente (Mau-mau, Paulo, Guida…), o Carlos Alberto, o Xico, o Maximiano e a Noeminha (meus pais), o Marito, o Zé barbeiro, a Ana Bananeira, o Zé Eusébio (tio do Libório): muitos mais tenho para citar; muitas mais estórias tenho para contar.

Voltarei à Quinta do Loureiro: tenho lá o meu ADN.

 

Fernando Morgado

MOSAICOS DA MINHA VIDA - 4

O IÓ-IÓ.

Quando recordo a minha infância e adolescência, até mesmo a minha juventude, não posso esquecer esta figura típica de Miragaia.
O Sr. António, vulgo IÓ-IÓ como todos o conheciam, era um homem só e solitário; não era muito sociável – com poucas razões para isso -, nada dado a conversas ou amizades. Não lhe conheci profissão ou família, idade ou origens. Era um ser bizarro; no aspecto, no semblante, no parco discurso, nos comportamentos, até mesmo na forma como não se dava a conhecer. Penso que, na época, seriam raras as pessoas que sabiam dele mais do que ele deixava saber.

Vivia na Rua do Cidral de Baixo, paredes meias com as escadas que liga à Rua dos Armazéns, para onde dava a única janela que o cubículo do Sr. António tinha para o exterior. Percebe-se o (des)conforto que esta casa lhe dava: saia de casa aos primeiros sinais de claridade e logo se dirigia ao posto de abastecimento mais próximo – durante muitos anos, a loja dos meus pais.

O mata-bicho era um copo de bagaço e um pão ainda quente, acabado de chegar. Por ali ficava, sentado na sua solidão, rumorejando pedaços de palavras que só ele ouvia completas. Mais que o educado “bom dia” a toda a gente que o cumprimentava, pouco mais era audível e entendível. Por ali ficava umas horas, até que a alma do seu relógio invisível o despertasse para pequenos passeios pelas ruas mais próximas, em procissão rigorosa por todas as “capelinhas” que os seus passos já conheciam.
Ao fim da manhã, se tanto, já o seu corpo era um harmónio de movimentos bem ao jeito do seu apelido: IÓ-IÓ.

Desaparecia por umas horas, escondido nas paredes do seu quarto, para reaparecer mais ao fim da tardinha, menos oscilante mas determinado a resgatar os negos (*) que ainda lhe faltavam para a normalidade do seu dia-a-dia. Era, então, em estado de profunda embriaguez que soletrava com as mãos as paredes que o conduziam até ao seu leito.

O Sr. António, como (por respeito) me apetece chamar-lhe, não era conflituoso ou malcriado, não se dava a intrigas ou confusões: era, por isso, um homem vulnerável à paródia dos outros para com ele. Paródia e malvadez (sim, por vezes era isso que acontecia), gozo e indignidade, joguete e espantalho. Enfim! Não me isento totalmente destas palhaçadas.
Ficava sempre a dúvida de se saber se ele gostava das patifarias que lhe faziam (dizia-se isso), ou se as patifarias afundavam ainda mais a sua hipotética autoestima e valor.

Lembro, a seu propósito, o tempo longo em que os meus pais tinham uma loja que seria das primeiras a abrir, ainda madrugada, na Rua dos Armazéns. Enquanto a minha mãe ia ao mercado de Gaia para trazer os legumes frescos que vendia na loja (vestia a pele de carrejona), e o meu pai ia a outro mercado buscar outros aviamentos, eu ou qualquer outro dos meus irmãos assumíamos a responsabilidade de abrir a loja e servir os primeiros clientes da manhã. O Sr. António era o primeiro. Nós não vivíamos a miséria de Miragaia, mas trabalhava-se muito na nossa casa: os meus pais foram uns heróis!
Lembro, também, as muitas vezes que a minha mãe lhe oferecia uma sopinha: tantas vezes ele aceitava como outras tantas ele rejeitava respondendo “Ó Noéminha, você quer-me matar?” O vinho, só o vinho, já lhe bastava.

Naquele tempo, quem não o conhecia?

Não lhe conheci ódios; dele e para com ele. Persenti-lhe, muitas vezes, o gosto em estar com as pessoas, ainda que gozando dele.

Não me lembro de gente importante na sociedade civil e civilizada daquela época, mas do IÓ-IÓ nunca me esquecerei.
Há, com toda a certeza, muitos outros conterrâneos com muitas outras estórias deste homem para contar. Até eu fico com tanta memória por contar. Voltarei ao IÓ-IÓ.

Este pequeno texto serve, pelo menos, para expressar a minha homenagem ao homem que estava sempre a tremer – o Sr. António.

Fernando Morgado

(*) Negos: pequeno copo de vinho, servido nas tascas do Porto, e que representava, em quantidade, metade do copo normal.