sexta-feira, 15 de janeiro de 2016



Deus disse: é pecado!

 O homem descobriu-lhe efúgio.

Da Bíblia:
“Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem ou com a mulher do seu próximo; tanto o adultero quanto a adúltera terão que ser executados” – Levítico 20:16

Entretanto, passaram muitos anos!
A vizinhança sabia a que horas o Zé chegava a casa. Qualquer que fosse a posição dos ponteiros, o prédio era invadido pela mistura dos insultos dele e os gritos da sua mulher.
Homem de poucas falas, e de poucas aparições, não se lhe conheciam amigos ou, até, familiares. Os dois filhos do casal foram retirados pela comissão de proteção das crianças, por reincidência dos maus tratos e perigosidade do progenitor. Várias vezes os miúdos foram abrigados pelos vizinhos em eminência de violência. Outras alturas houve que os rapazes passaram a noite ao relento ou na urgência do Hospital Santo António, por consumação de agressões.

Da Bíblia:
“Do fruto da boca o homem come o bem; mas o apetite dos prevaricadores alimenta-se da violência.” – Provérbio 13:2

Zé chegava a casa já embriagado e com o humor habitual. Saia muito cedo para o trabalho, numa cimenteira da Maia, e só voltava passadas 3 ou 4 horas após picar o cartão de saída. Fazia a terapia do costume: a tasca do Pinto era o albergue da tertúlia de bêbados a que o Zé pertencia. Entre um courato salgado, que rodava na boca ao jeito de chiclete, e uns copos de tinto, as conversas não se alargavam para além do futebol e das putas.
Xana era uma mulher bonita, corpo bem desenhado, volumes exactos para gaudio dos olhos masculinos. Só ela percebia como disfarçava o seu corpo das mazelas que o Zé lhe deixava: as do corpo, tapadas pelos trapos e pelos óculos escuros, e as da alma, amenizadas nos piropos que ouvia…e gostava.
Não podia contar com o marido para nada. Todos os dias ele lhe berrava que se matava a trabalhar e ela sempre a reclamar. Não tomava, ele, juízo do uso que dava ao seu ordenado: os arredondados 600 euros que a empresa lhe pagava usava-os totalmente nos transportes, na tasca e no tabaco. Não faltava a nenhum jogo do seu FCPorto: tinha lugar anual no topo norte, junto à claque do “Colectivo”.
Um ano de namoro e muitas promessas chegaram para que jurassem fidelidade eterna, até que a morte os separasse, no altar de S. Nicolau. Nunca foi fácil, menos ainda amorosa, a vida deste casal. Durante vários anos, e na falsa esperança de ele poder mudar, Xana foi aguentando tudo o que nunca imaginara suportar. Em intervalos traiçoeiros, surgiram as gravidezes do Fábio e do Bruno, espaçados dois anos um do outro.

Do psicólogo António Araújo:
“Traição máxima é o desânimo de estar com alguém.”

Parece corriqueira esta história se não lhe acrescentarmos a orfandade de Xana, desde criança ainda, e os sucessivos passos de ajuda e integração lhe foram impondo. O Zé foi a escapatória, da miséria para a desgraça. Entre sofrer e sofrer escolheu a sorte – É a minha cruz! -, e acertou no pior. Há vidas que não se conseguem contar: só quem as vive sabe dizê-las.
Bem treinada nos dogmas da Igreja, incrustados na sua mente nos vários colégios em que a gradearam, Xana, mesmo assim, era temente a Deus, não fosse também ele deserdá-la de ajuda e esperança. A infidelidade era um tormento na sua cabeça. Ele mata-me se souber de alguma asneira!
Os apelos do corpo, os desassossegos da alma, a autoestima em falência, a vida no limbo do nada, tudo lhe ocupava o pensamento e dilacerava a vontade. Meu Deus, o que dirá a vizinhança!
Era o chefe e os colegas, o vizinho do 2º andar e o motorista dos STCP, era a Ana, com quem trabalhava na TudoLimpo, com inveja do seu corpo e dos seus olhos, e a doutora do centro de saúde a lembrar-lhe a Fé que nunca devia perder: todos a olhavam e a julgavam pelo prisma da normalidade. Xana sentia-se um joguete nos olhares e pensamentos alheios. A infidelidade era um tormento na sua vida – o medo e o desejo em sentidos opostos.
O internato em que os seus filhos estavam institucionalizados, e que tanto lhe lembrava o seu percurso, recordava-lhe constantemente que qualquer desvio do seu “bom comportamento” mais lhe afastava a possibilidade de recuperar o amor dos pequenotes.

Da Bíblia:
“Pois, se vocês viverem de acordo com a carne, morrerão; mas, se pelo Espírito fizerem morrer os atos do corpo, viverão.” – Romanos 8:13

O João Miguel, director do Millennium, onde ela estava destacada para a limpeza da loja, era, de entre todos os piropos e propostas que ouvia, o que mais mexia com ela. Talvez porque nunca a desafiou, nunca lhe tocou, nunca lhe deu horizonte. No entanto, ele era de uma disponibilidade imensa para a ouvir, sempre com sorriso e conselho assertivo, e cuidadoso a dizer-lhe para nunca se esquecer da sua condição de mulher. Xana mantinha, em misericórdia de esperança, um corpo fantástico e, curiosamente, a riqueza de ter o 12º ano e o domínio de alguma retórica. Gostavam-se nas conversas que mantinham.
Uma vizinha do bairro, a Nela, trabalhava na copa do Café Velasquez; um dia, testemunhou um sorriso cúmplice entre a Xana e o João. Tudo mudou na vida da Xana! A vida do João também não ficou igual.
Nem uma ida a Fátima, por caminhos lamacentos e estradas perigosas, lhe amoleceu o pesadelo. O Senhor tinha que a ajudar; tinha muita Fé nele!

Da Bíblia:
“Vocês ouviram o que foi dito: ‘Não adulterarás’ Mas eu digo: qualquer que olhe para uma mulher, desejando-a, já cometeu adultério com ela no seu coração” – Mateus 5:27-28

Conheceram-se na casa de amigos comuns, na euforia dos santos populares; entre sardinhas e balões, ousaram um transvertido folclore nos seus trôpegos passos de dança. Riram-se deles próprios, e dos piropos inocentes que trocaram. A Carmo era boa companhia; a alegria estampada no seu rosto, o apelo dos seus olhos, o encanto do seu corpo – aquele decote! -, e as mãos e os lábios e o cabelo e as palavras: tudo enfeitiçou o João.
Carmo estava quase a concluir o curso de estética que frequentava numa escola do Campo 24 de Agosto. Era muito bonita e simpática, com uma alegria contagiante. Com ela ninguém se mantinha sisudo. A toda a sua natureza, acrescentava os proveitos das aulas práticas do seu curso: nenhum pelo fora de moda; a celulite sem poiso; mãos e pés muito bem tratados; uma pele de seda e maquilhagem q.b. que lhe acrescentava sex appeal.
Sentiu alguma agitação quando o João lhe disse que estudava na Rua Fernandes Tomás, no Instituto de Formação Bancária. Esta proximidade trouxe mais folclore e balões à sua imaginação. E premonição, também!
Uns copos nas Galerias, uns hambúrgueres no Shopping Via Catarina, e o apartamento em que o João vivia sozinho, consolidaram um namoro que, formalmente, nunca assumiram. Por via desta amizade colorida com a Carmo, João rareou mais as idas a Mangualde, para mitigar as saudades dos pais e rever amigos. Por lá ficou a Mariana, a quem prometeu voltar para se unirem eternamente.

Do blogue “Eu respondi…desde 1988, às pessoas que me perguntaram sobre a Bíblia.”
“Se entendeu que fornicação é o sexo fora do casamento, então sabe que isso inclui também o sexo antes do casamento, ou seja, mesmo entre duas pessoas que pretendam casar-se. Como elas ainda não estão unidas em matrimónio, elas encontram-se em situação de fornicação se mantiverem relações sexuais. Deus sabe sempre o que é melhor para nós.”

Natural e distraidamente, foram consolidando a união entre os dois. Ambos já colocados nos seus empregos – ele no BCP e ela num conhecido instituto de estética do Porto -, encontraram a estabilidade económica necessária para uma vida em comum, e com sonhos.
João nunca se subtraiu ao prazer-vício da pesca em rios do interior, de difícil acesso, onde encontrava as espécies que subiam as águas para a desova. A Carmo acompanhou-o em algumas dessas jornadas - compraziam-se os dois na beleza e privacidade que a natureza lhes oferecia. Dias de prazer!
A paixão da Carmo pela sua profissão ocupava-lhe alguns fins-de-semana com eventos, congressos e viagens para apresentação de novas técnicas e produtos. Todos a conheciam e queriam, pela sua alegria, pela sua simpatia e pela sua beleza. Carmo era divina!
Um dia, o administrador de uma importante marca de cosméticos convidou-a para a direção técnica da marca, em todo o território nacional, liderando uma equipa de seis conselheiras. A sua vida agitou-se, cogitou nos prós e nos contras – E o João, que chatice! -, e caminhou para um outro futuro. O desafio era tentador e oferecia-lhe um horizonte enorme. João não obstaculizou esta opção da sua mulher; ele continuaria a cultivar o seu estilo de vida, calmo e sem horizontes mediáticos. Adiaram os filhos que se prometeram e sonharam. Eles viriam estorvar a carreira profissional da Carmo, e João não se via na condição de pai e mãe.

Da Bíblia: Salmo 128, versículo 3
“A tua mulher será como a videira frutífera, no interior da tua casa: os teus filhos como plantas de oliveira, ao redor da tua mesa.”

Um dia…João encontrou o prazer da conversa com a mulher da limpeza, no banco onde trabalhava. Libertou-se! A Xana só (!?) queria que lhe desse atenção, e mostrava-se agradecida. Os temas foram evoluindo, já não era só a violência doméstica que lhes ocupava os desabafos. Na ausência da mulher, foram várias as noites que João partilhou com a Xana, em conversas de vida.
Xana tinha passado por um momento de verdadeiro terror. O marido, desconfiado da demora dela em uma, duas e várias noites, juntou ao álcool o ciúme, e preparou-lhe uma cilada. Felizmente para ela, as traseiras da casa tinham uma grande varanda comum a todas as habitações, e por ela se refugiou em casa da Albertina. Mesmo assim, não escapou totalmente incólume à lâmina da sua melhor faca de cozinha.
O Zé, divórcio consumado, cumpria pena na cadeia de Custoias por homicídio na forma premeditada e falhada. Liberta dele, tinha outra missão para cumprir: resgatar os filhos seria a sua próxima batalha.
A Carmo corria o país de lés-a-lés, Ilhas incluídas, e ainda juntava várias idas a França à sede da empresa. Eram mais as pernoitas em hotéis que as passadas em casa. O seu mundo era cintilante e o poder estava a um beijo de distância.
Um dia…Carmo deu mais atenção – comiseração, talvez – às falências pessoais do Dr. Ponce. A esposa estava, desde o maldito acidente de viação que quase ceifava a vida aos dois, imobilizada numa cama, ou presa a uma cadeira de rodas tecnologicamente adaptada à paraplegia que lhe tirou futuro.
“…recebo-te por minha esposa, a ti Maria João, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida...”
Ponce deixou-se vencer pela falência emocional, psíquica e sexual, com que a vida o rasteirou. Até conhecer a Carmo!
João vivia feliz a felicidade de Xana. Carmo vivia o empolgamento dos horizontes que Ponce lhe oferecia.
Se isto fosse uma notícia de jornal, o título seria: “Dois presos e quatro em fuga”.
Não propriamente em fuga, mas em desaparecimento físico prolongado, estava o Afonso Quaresma, casado com a Mariana. Vencido o desgosto de não ter casado com o João, a jovem continuou a viver em Mangualde, e por lá casou com um empreiteiro a quem os pais entregaram a remodelação da vivenda onde habitavam há já longos anos, e que seria dela por herança; a vivenda e todas as outras propriedades, incluindo um terreno entretanto alugado à REN para instalação de turbinas eólicas. Daquilo tiraria um bom rendimento para o resto da vida.
O Quaresma escapou, com mazelas fiscais, da crise imobiliária em Espanha, onde tinha investido avultados créditos concedidos pela banca daquele país. Voltou à terra, onde ainda vivia a mulher de quem se tinha divorciado, e emagreceu substancialmente o seu arrojo profissional. Não assumia grandes empreitadas. Mantinha alguma discrição. Espartilhou-se em pequenas construções, e especializou-se a recuperar casas em ruinas ou remodelação de moradias.
O Gonzalez, seu parceiro de negócios em Salamanca, desafiou-o para um grande projeto no Brasil, onde despontavam oportunidades como cogumelos, e a corrupção escondia-se à boca pequena. Estava-lhe no sangue: não resistiu a tamanha demanda, e partiu! Ficaram as promessas de proveitos altos e visitas à mulher de dois em dois meses, ou, até, a possibilidade de ela dividir a sua vida entre Mangualde e Guapimirim, onde ele disse que ia morar, a dois passos do Rio de Janeiro.
Ele o parceiro de ousadia sabiam tanto de construção como de corrupção. Tiveram alguns anos de treino, e aprenderam bem. Quaresma deparou-se com uma realidade que bem conhecia. Voltou a Portugal para festejar o aniversário de Mariana e, quatro meses depois, para celebrar o Natal em família. Nunca mais lá voltou.
Nos primeiros tempos, telefonava à mulher todos os dias: as saudades e os ciúmes, o corpo e a alma, o amor e o desejo – o ardor das conversas era intenso. Mariana nem ousava a masturbação que tantas vezes lhe apetecia: era pecado! Quaresma dizia-lhe que ela era a sua inspiração: era prazer!

Da Bíblia: Efésios 5:3
“Entre vocês não deve haver nem sequer menção de imoralidade sexual como também de nenhuma espécie de impureza e de cobiça; pois essas coisas não são próprias para os santos.”


De todos os dias passou a todas as semanas, e então era já de vez em quando que o marido lhe telefonava. Pior do que isso, raramente lhe atendia o telefone, estou cheio de trabalho, e não respondia à chamada não atendida. Mariana vivia em tormenta: os pais em falência de corpo e de saúde, com necessidades primárias de assistência e acompanhamento, as lides do dia-a-dia, e o desconhecimento da realidade em que o marido estava metido. Capaz de aventura era ele; sabia-o ela bem!
Passaram-se uns largos anos e notícias nenhumas, para mitigar a sua dor, a sua revolta, a sua indignação. Nem os colegas ou amigos, nem as empresas que ela sabia ou o consulado português, nem a família do Gonzalez – em angústia igual – lhe davam pistas. Mariana sentia-se viúva de marido vivo – em retorno de castidade.
Numa das manhãs cinzentas, como todas lhe pareciam, em que saiu para ir à feira semanal, passou no Cartório Notarial para falar com a Dra. Luísa – assuntos testamentais -, e…
- Mariana, Mariana…
Petrificou. Abriu o carro, tentando discretamente confirmar aquela voz que a trespassou em memórias, em anseios, em felicidade perdida: conhecia aquela voz!
- Mariana, não me conheces? Já junto dela, aquela voz repetia-se e resgatava-a de um inferno por que passou.

João ficou viúvo do segundo casamento, e adoptou os dois filhos da Xana. Depois de casarem, ela conseguiu recuperar a custódia do Fábio e do Bruno. Viveram uma felicidade nova para os dois, mas…um cancro de mama, galopante, levou-a na melhor fase da sua vida. O desgosto foi enorme.
Voltou a Freixiosa, à sua casa natal, então abandonada desde a morte dos pais, para encetar a sua recuperação rápida e passar a viver nela com os miúdos. O aproveitamento escolar dos irmãos não era o desejável. João ambicionava o mínimo para eles; o ensino obrigatório. Depois, seria na vinha e no vinho que ele alicerçaria o futuro dos três.
O futuro de Mariana fez-se de sorrisos e de felicidade!


Fernando Morgado

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NOTA
Nasci no Porto, na freguesia mais pobre da cidade - Miragaia - à beira rio, entre a Ribeira e Massarelos.
Filho de polícia (e barbeiro) e de operária têxtil (e dona de casa).
Tenho 4 irmãos. Sou católico.
Apaixonadíssimo pela minha cidade e fanático pelo meu clube: FCPorto.
Escrevo para mim desde muito pequeno; para ser lido só há dois/três anos.
Participei nas colectâneas da Lua de Marfim: "Cartas", "Premonições" e "Poema-me"
Participei nas colectâneas da Papel D'Arroz: “A despedida”, “Ei-los que partem” (cujo concurso venci) e “Som de Poetas”.
“Mentira” e “A Mulher do Próximo” pela Pastelaria Studios.
“Bad Girl” - contos eróticos com Silkskin Editora.
Espero escrever até morrer.
Fernando Morgado

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

O VÍCIO, MALDITO VÍCIO!

Um bailado de sombras entra pela janela e ocupa a sua noite. João está a viver em casa emprestada, não conhece ainda os sons, os hábitos, os rituais daquele prédio. A proximidade do seu quarto ao elevador foi o primeiro sinal de diferença para a tranquilidade do seu sono. Da rua, ali mesmo a um palmo da janela, na parede que sobe para o seu quarto, no primeiro andar, os autocarros gritam o pára-arranca na paragem ali colocada. Os passageiros são sempre muitos, talvez pela proximidade à bifurcação de duas ruas. Vou ter que me habituar, claro!
O vento forte e a chuva intensa, confirmam a previsão meteorológica anunciada para aviso laranja. João não é capaz de adormecer no escuro absoluto, daí a persiana ficar sempre semicerrada, e as sombras ondularem as paredes que lhe dariam descanso. Anula-as acendendo o candeeiro de mesa.
Pega no livro de ocasião – Queres casar comigo todos os dias? -, embora outros três lhe façam companhia em intercalada leitura, abre na página 15, e espera pelo crepúsculo.
“A tua boca por preencher a minha.”
Sabe, ou pensa assim, que o público-alvo do Pedro Chagas Freitas é, maioritariamente, feminino. Procuram nas suas páginas as palavras doces, os cliques mágicos, o esquisso das relações que sempre sonharam: até as rosas murcham! “A tua boca por preencher a minha”: adivinha-lhes suspiros, calores, e sonhos, sonhos, sonhos!
Nem mais!
Banha-se de ideias, hidrata-se em hipóteses, perfuma-se em expectativas, e dá-se à rua, a caminho da FNAC no GaiaShopping. Dá-se ao vício!
Ninguém lhe adivinharia esta “pancada” tão estranha e submersa ao senso comum. João é, segundo os paradigmas da normalidade e educação, um homem de bem. No entanto, escondendo-se em si próprio, dá-se ao vício da procura insana de excertos, mensageiros, nos imensos livros que lhe correm pelos dedos à velocidade da sua excitação.
Tinha comprado um cartão de telemóvel, numa loja de rua, e não deixou nenhuma identificação de quem seria o utilizador. Esta será a sua muleta. Com esta peça de ferramenta ousará fazer muitos desarranjos.
Chegado à livraria, vai directo à prateleira, toma um exemplar do referido livro, abre na página 15 e, de uma forma cavilosa, a lápis, escreve a seguir à referida frase:
“A tua boca por preencher a minha.” Queres? 9111C1111.
Repõe o livro. Volta ao temporal: a chuva está inclemente. Estes dias de Setembro, ainda verão mas quase outono, são tão imprevisíveis e irregulares. Talvez o sol ainda apareça.
Sempre que ressaca o vício, sente uma tensão enorme tomar-lhe conta dos pensamentos. Esta aventura, rica em adrenalina, vem desde os seus tempos de liceu. João nunca teve aquilo a que se chama uma namorada. Alguns flirts, inconsequentes, não o resgataram ao prazer da provocação sub-reptícia: qualquer namorico, quando ganhava normalidade, deixava de o entusiasmar. Lembra-se da Catarina, sua colega de liceu, a quem deixou um bilhete de cinema no livro de filosofia “A cor das ideias”, na página onde ele sabia que ela iria, a propósito da próxima avaliação. Com o bilhete, deixou um post-it “o lugar ao lado está ocupado”. Catarina não ousou usar o bilhete: à cautela, não fosse partidinha do prof., ficou perto (sem ser vista) tentando escrutinar, por entre as pessoas que saiam, a personagem da aventura que lhe foi oferecida. João trocou-lhe as voltas.
Fez-se de amores com a Cláudia, a quem pôs no bolso do casaco um bilhetinho anónimo. A jovem nunca imaginara fazer o seu baptismo de parapente ao lado do João. Em véspera de outra iniciação!
Os bilhetinhos, os post-its, as mensagens, são a matéria-prima do seu vício, do seu acaso: a adrenalina pode vir de onde menos se espera. Até uma ameaça, uma mensagem insultuosa, uma emboscada, uma aflição, ele gosta: talvez seja mais isto que o excita, embora ele opte por pensar que é mesmo o espanto e o proveito de algumas conquistas que o motivam e o resgatam. Por mais sustos por que passe não se alivia deste vício.
O telefone continua vazio de respostas. Será que o livro foi embrulhado para ser entregue como prenda de Natal? Ou foi para o estrangeiro? Pode, até, haver leitores como ele que, por vezes, compram um livro e põem-no em fila para ser lido mais tarde. A ansiedade perturba-o. Aquele onde escreveu era da 10ª edição, e ele já vai na 15ª. Ok, é este o jogo – esperar.
É verão ainda, no pico dele (o temporal ocupou só dois dias), e o “Queres casar comigo todos os dias” anda a banhos por todo o país, nas mãos de ansiosas veraneantes. João cogita cenários: uma morena, com verão no corpo e outono no casamento, lê avidamente o livro e salta na surpresa da sua mensagem…estupefacta…e agora?...ligo?... João espera.
Passa na Almedina, procura “Budapeste” de Chico Buarque, abre ao calhas…não… mais umas páginas…outras ainda…e para na página 41:
“…e aí eu descobri que Kriska gostava de ser beijada no cangote. Aí ela tirou pela cabeça o seu vestido tipo maria-mijona, não tinha nada por baixo…”
Ouve um bip no seu telemóvel: pode esperar. Volta àquela frase e deixa a sua pegada: Humm! Tirar-te o vestido, que bom! 9111C1111
Pega no aparelho, confere o bip recebido: Quem é você? …Responde: Prova-me!
Fixa-se naquele bate-papo de mensagens, e acaba por encontrar Cleide, acompanhada pelo marido, na esplanada do Mar à Vista. In extremis, refugia-se nos sanitários do bar.
Volta a casa, mais transpirado pelo susto que pelo calor, e refresca-se num duche gelado capaz de lhe lavar todos os medos, ainda que impuros e lascivos. Este susto, para seu hábito, foi muito mild. Ufa!
Avesso a estigmas sexuais, mantém a firmeza da sua heterossexualidade. Mesmo sabendo que as suas partidinhas podem ser lidas por qualquer tipo de pessoa, desde idosas a obesas, passando por teenagers ou catequistas, ou até por brutamontes ou mulheres casadas, é nestas que ele deposita a sua grande esperança e expectativa. Há por aí muitas mulheres mal casadas, e sempre se disse que estas são as mais caladas.
É um risco, claro que é um risco, mas se não fosse assim já o vício tinha acabado.
Volta um bip: Alguém me quer pagar um vestido?...Responde: Pode ser!
Pouco tempo depois, emaranha-se no labirinto de expositores da Zara sem perceber que o observam junto à caixa central. Precisa de ajuda?, diz a simpática funcionária. A parvoíce tem as suas ratoeiras!
As suas noites continuam insoniadas: pelo calor, pelo barulho, pelo turbilhão de arquétipos ocultos. Tem que mudar de casa. Aquela é provisória, emprestada por um amigo, e procura uma menos exposta a movimentos e barulhos. Esconderijo, como é da sua preferência.
A manhã vai a meio e ainda não saiu para o seu cafezinho habitual, na esplanada da marina. O vício perturba-o. Procura nos seus livros aquele que é o seu preferido de J. Kenner - “Possui-me” -, lê na oblíqua, retém este excerto:
“Estou nua e estremeço. Não por causa da frescura do ar, nem por causa do anseio nos olhos de Damien. Um anseio ao qual me entregarei da mais livre vontade.”
Está criado mais um mote; procurar o livro para nele deixar o seu contraste.
Entra na Bertrand, deixa-se tomar por um receio: se for direito àquele livro e logo depois sair, alguém poderá reparar no gesto e ficar a saber quem escreveu nele. Pega numa revista sobre automóveis, esfolheia à sorte, e dirige-se ao balcão perguntando por uma revista (que sabe não terem) sobre bordados e lavores para oferecer “à esposa”. Volta às prateleiras, encontra o que quer, procura certificar-se que não é visto, e abre na página 15. Fica a sua marca:
Deixa que os nossos umbigos se gozem. 9111C1111
Cai o lápis, estremece, e empurra-o com o pé para debaixo do expositor. Lembra-se daquela vez em que, atraído por uma colega de trabalho – peito XXL e olhos de água -, na tentativa de lhe colocar dentro da carteira um bombom com mensagem “Em beijos treparei as tuas montanhas. 9111C1111”, a mesma esparrinhou-se, audível, pelo chão do escritório. Simulou uma queda, e pediu desculpa à Marta. A jovem nunca chegou a provar aquele bombom. João safou-se desta, mas não se livrou daquele desassossego todos os dias. Tentaria de outra forma. O vício não o deixa mudar de caminho.
Um novo bip atrai o olhar do livreiro. João não resiste ao receio e volta à prateleira. Retira o livro de Tara Su Me – “Atraída pelo fogo” -, e dirige-se à caixa para pagar.
Olha o telemóvel: Quero.
Sem saber qual o livro que precede esta mensagem, avança com uma afronta: Onde? …e espera. Foi a Cristina, mulher de pouca roupa e muita safadeza, que o orientou até ao Motel Flamingo, em Perafita. Saiu humilhado e sem vontade de voltar a ver a espertalhona. Também as há, mas ele não desiste: o vício é mais forte!
Hoje, tem o aniversário do irmão para festejar. O convite é para jantar e conviver com o resto da família. Todos gostam dele: João, nestas ocasiões, é o bobo da festa. Encanta todos com as suas estórias sobre a fecundação dos cogumelos, ou anedotas sobre alentejanos. As crianças deliram com as suas brincadeiras. Vai respondendo que não senhor, nem pensar em casar, a vida é melhor em estado de procura. E namoradas? Dá-se como pedagogo nessa matéria.
Está ansioso com o seu novo livro. Antecipa a saída da festa dizendo que vai, ainda, dar uma aula particular. Já na cama, esfolheia o livro em excertos salpicados e, qual predador que pressente a presa, para na página 86:
“Abriu-lhe as pernas e ajoelhou-se entre elas, tendo cuidado com o traseiro cor-de-rosa. Mordiscou muito levemente a pele sensível parando algumas vezes para lamber o clitóris…”.
Não fosse noite, ia de imediato a uma qualquer livraria para gravar, a lápis, o ferrete do seu vício. Assim o faz logo que o homem da Fagor deu por terminado o concerto da máquina de lavar louça, que ele tinha chamado na véspera. O relógio marca 10h45, o sol ameaça canícula, ele vai arquitetando a marca que deixará no livro.
Fica na fila de turistas que esperam para entrar na Lello. O calor não recomenda a espera, mas…tem que ser! Desta confusão resultará mais tranquilidade para pegar no livro e deixar a sua mensagem. Assim o faz: O teu orgasmo enlouquece-me. 9111C1111.
Na procura deste, dá-se à curiosidade com outro livro que está entre as novidades. Depois da sua tarefa cumprida, pega de novo no livro de Dorothy Koomson – “A praia das pétalas de rosa” -, olha de soslaio o preço (tem que recuperar os três euros que deu para entrar na livraria), e encaminha-se para a caixa a fim de pagar o mesmo. Ainda antes de o fazer, o vício impôs-se. Tinha farejado a página 352:
“E as minhas pernas? Não são elas as tuas preferidas? Passei as mãos pelas coxas. Ele abanou a cabeça. E o meu traseiro? Passei os dedos pelos lados do meu traseiro. Ele abanou a cabeça.”
Não resiste. Por entre a panóplia de gente, e de nacionalidades, que o cerca, abre o livro naquela página e sublima o vício: E o meu tesão? 9111C1111.
Fica mais um pouco, saltando de banca em banca, sempre de olho no livro, esperando que alguém o tome em mãos. Uma estrangeira reboluda, e muito jovem, pega no seu segredo e, sem o abrir sequer (talvez já conheço o livro), faz o pagamento do mesmo. Leva o livro em envelopes vermelho fogo. O Erasmus cria novas dinâmicas: João “baba-se” em premonições.
Tem mesmo que tratar de arranjar outra casa para viver. Aquela onde está é do seu amigo Bruno, entretanto emigrado em Londres e a trabalhar para a Google. Não porque ele o esteja a pressionar, mas porque o apartamento não lhe dá a privacidade e a discrição requeridas pelo seu mais sórdido vício. Quer voltar a uma outra faceta da sua perturbação:
“ALUGA-SE T0 a estudante. (só meninas) 9111C1111”
Qualquer ameaça de tiros e tareias, de polícia e tribunal, já o encontram couraçado no traquejo, no malabarismo, no à vontade de tantas cenas porque tem passado. O vício seda-o!
Goza o pôr-do-sol na esplanada do Alex. Os óculos escuros são a sua prótese imprescindível. Confere a paisagem humana que partilha também aquele espaço, e fixa a lourinha, mesmo na mesa ao lado da sua, em conversa pegada com uma amiga, a Clara, sobre as desilusões com o seu marido. Embora por telemóvel, João percebe que a amiga tenta confortá-la, sem sucesso.
Os neurónios agitam-se, o vício desperta, é assaltado por várias ideias: aquela pele chocolate, os olhos verde-esmeralda, e o cabelo louro bebé, não o deixam sossegado. Mostra melhor o livro que, pretensamente, está a ler, na expectativa de as pétalas de rosa provocarem uma boa conversa de praia.
Ainda a vizinha está ao telemóvel quando o dele o alerta com novo bip: Tens tesão para mim?
Não reage de imediato. Continua perturbado com a loura ao seu lado. Muda de posição, ganha-lhe mais corpo para os seus olhos, o ardor consome-o…Ela sai da esplanada, dirige-se para o carro e ele segue-a, primeiro com os olhos depois em passos apressados: fixa-lhe a matrícula do carro. Amanhã voltará a investir, com novas ideias.
Já a chegar a casa, recupera a lembrança do último bip que recebeu: tens tesão para mim?
Fica a olhar para o visor, perdido entre a resposta que deve dar e a imagem da loura que lhe escapou pouco antes, e opta por tomar um duche antes de qualquer atitude. Precisa de sentir a água a correr, de descarregar as diferentes energias que o assolam. O vício, incontornável vício!
Queres confirmar? Responde, devolvendo a bola para o lado contrário.
O visor acende em urgência de resposta:
Claro que quero. Rua dos Encantos, nº 13, 1º andar dto. Espero-te – 22h00.
Dentro de si, sente um coro de emergências e um vulcão de adrenalina. Pega no livro de Dorothy Koomson, como se estivesse a caminho de um debate literário; põe no bolso um pequeno tubo com o que sobrava de gel anestesiante; reforça um pouco mais a fragância que sempre usa: Ok, vamos a isto!
Experiente, não esquece a rosa que se impõe sempre nestas circunstâncias. Compra rápida, no shopping mais perto.
É um prédio bonito, com sinais de recuperação recente, embora com traço de meados do século passado. Toca na campainha, não assessorada por videoporteiro ou intercomunicador, e a porta abre-se de imediato. Sobe os degraus pausadamente, sentindo a tremura habitual em assomo de adrenalina. A porta está já entreaberta, e dela vem um som blues muito agradável. Pressente uma noite fantástica.
Assim que a porta fecha, ouve, bem perto do seu ouvido, uma voz melosa que lhe sussurra:
Vamos ser felizes!
Todo ele explode! Não, não pode ser verdade! Nunca se sentiu tão arrebatado quanto naquele momento. Toma-o o delírio de uma situação inimaginável.
Sente dois braços musculados envolverem-no por trás, e uma mão que ternamente lhe tapa a boca. Tanto desespero, meu Deus! Pavor!
Cláudio, entre sussurros de “sou meigo, não tenhas receio” ou “vais adorar”, sodomiza-o em silêncio de dor e de revolta. A humilhação deixa-o sem voz. Lembra-se do gel que tem no bolso das calças, embora a previsão tenha sido outra.
O vício, maldito
 

Fernando Morgado



NOTA
60 Anos. Uma filha com 34 anos. Um filho com 30 anos
Nasci no Porto, na freguesia mais pobre da cidade - Miragaia - à beira rio, entre a Ribeira e Massarelos.
Filho de polícia (e barbeiro) e de operária têxtil (e dona de casa).
Tenho 4 irmãos.
Sou católico.
Apaixonadíssimo pela minha cidade e fanático pelo meu clube: FCPorto.
Trabalhei em diversas áreas: farmácia, papelaria, ourivesaria, cosmética (L'Oreal), cabeleireiro, mas foi na formação de cabeleireiros que me notabilizei mais: é o meu aquário!
Escrevo para mim desde muito pequeno; para ser lido só há dois/três anos.
Participei nas colectâneas da Lua de Marfim: "Cartas", "Premonições" e "Poema-me"

Participei nas colectâneas da Papel D'Arroz: “A despedida”, “Ei-los que partem” (cujo concurso venci) e

“Som de Poetas”.
“Mentira” e “A Mulher do Próximo” pela Pastelaria Studios.

“Bad Girl” - contos eróticos com Silkskin Editora.

Vou editar o meu primeiro livro com a chancela da Papel D'Arroz.
Outros livros? - o dinheiro é que manda.
Fiz uma formação de escrita criativa na "Companhia do Eu", com o Pedro Sena-Lino
Fiz várias formações com o Pedro Chagas Freitas, de quem sou admirador
Tenho participado em muitos campeonatos de escrita e de poesia, com resultados que me agradam.
Espero escrever até morrer.

Fernando Morgado

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Aqui,
na varanda em que te espero,
já as gaivotas partiram
e os patos regressam em paz.
Há os barcos e os elétricos,
os homens a jogar cartas 
e os gatos à espera de um mimo.
Aqui,
 
nesta pele de telhados incertos,
 
clarabóias cegas e chaminés caladas,
 
já o sol se põe
 
e a lua espreita.
 
Aqui,
esta sombra de mim,
anuncia a tua chegada.
 
Fernando Morgado