terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL.


OS MEUS MOSAICOS – 31

É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL

O Porto, de há muitas décadas para cá, não tem uma tradição de corso carnavalesco como vemos por tantas cidades e vilas e aldeias e lugares e becos deste país em permanente disfarce.

Se a amestração visual e a tradição histórica nos levam para imagens mascaradas e travestidas, também é certo que a arte do engano e das metáforas jocosas e divertidas são o complemento obrigatória para qualquer “recado” que as escolas, transformadas em baterias, e os anonimados pelas máscaras querem manifestar sob a protecção do “ninguém leva a mal”.

Não foi este o carnaval que aprendi.

Miragaia era terra de muita gente e, mais ainda, de muita canalhada (termo carinhoso com que os miúdos eram tratados nesta terra). Havia muita diversão, sem que o dinheiro fosse importante para os festejos; simplesmente, não havia dinheiro – mas havia vontade, criatividade e alegria!

De um cartão qualquer, ou de uma cartolina (mais “fina” e cara), extraiamos uma máscara desenhada por cada um, cortada à medida e ao formato da cara, e pintada com giz ou carvão, por forma a ganhar uma careta medonha ou ridícula. Por vezes, completávamos os disfarces com erva politária, cordas e fios a fazer de cabelo, ou um chapéu ou lenço de cabelo (igual aos que as mulheres usavam para entrar na igreja) para que a identificação etária também se alterasse.

À canalhada juntavam-se jovens e adultos, à boleia da diversão que os pequenos provocavam, muito em função da inocência que a idade lhes dava. Era frequente ver os mais crescidos em formato “travesti”, munindo-se de tudo o que fosse possível para, assim, conseguirem as figuras mais fantásticas, abstractas e hilariantes como à quadra convinha.

Um fato velho (havia novos?), camisa e gravata – tudo encolhido ou diminuído por alinhavos, cordas ou elásticos -, eram surripiados aos pais para trajar a loucura. Ou, então, uma saia e uma blusa e um lenço e umas socas e um avental e um robe: tudo servia para amulherar os machos de todas as idades, tornando-os matrafonas de ralé; deliciosamente ridículos!

Alegria era coisa que não faltava. Sobrava, até, para os turistas de kodac que se acumulavam em cima das grades (só um miragaiense sabe o que isto quer dizer), capazes de fotografar as imagens mas nunca os sentimentos e os disfarces mentais que, sub-repticiamente, geravam tanta galhofa.

Em Miragaia, terra de apelidos e cognomes e alcunhas, havia imensos casos de pessoas a quem não se conhecia o nome próprio, tal era o uso do seu baptismo social, em função da família, da rua, da ocupação, da deformação, do tique, do cadastro e do curriculum (mai’nada!). A alcunha era, em si mesma, o primeiro e principal disfarce que as pessoas usavam. Pouco adiantava que alguém procurasse o Sr. António que morava em Monchique (aqui em Miragaia, claro) ou o Sr. António que morava no Cidral de Cima (também em Miragaia, claro); ou perguntavam pelo Tono-sem-nada e pelo António-corrico, ou ainda iam parar a Lisboa, onde morava o Sr. António…Salazar.

De repente, apetece-me imaginar um carnaval do meu tempo de menino e adolescente, do tempo das gentes do meu tempo. Deixo os olhos em corrupio pelo Largo da Praia, o Bento Peixoto, a Drogaria Moura, o parque, a Conquistadora e o largo das bicicletas; encho-os de gente com alcunha – disfarce do nome – e, em ressalva de culpa se alguém se importunar, incluo na festa o Poupiço, o Chico Mula, o LéLé, o Cinco-e-meia, o Muleta Negra, a Pata-rasa, a Tira-a-bicha, o Sucatas, a Pataca, o Tininho, o Eiga, o Regedor, o Sinhosinho-malta, o Olho-do-caco, o Caçoila, o Sucatas, a Maria dos pitos, o Sete-colhões, o Bacano, o ió-ió, o Maleiro, a Maria-pulga…grande farra, grande festa, grande alegria.

Era tanta a folia que logo se juntavam a ela o Migalhas, o Macaquinho, o Tirone, o Tareco, o Turra, o Marmitas, o Tipita, o Carolas, o Zé Lambão, o Olho-de-vidro, o Cabeça-de-martelo, o Cabanas, o Comidorme, o Mau-mau, o Sem-nada, o Gamelas; enfim, a festa era tanta com tanta gente que a fazia!

Por vezes, até o Pilas e o Jacaré, o Cachimbeiro e o Mama, o Gamelas e o Trincas, o Tonisca e o Unhacas, a Tendeira e a Bananeira, a Rabela e o Mini-saia, a Maria-preta e a Sardinha, o Tchuta e o Beira-alta, o Mata-carneiros e a Rancheira, o Moqueiro e o Zé-cavalo, o Rela e o Teimoso, também apareciam para a galhofa.

Para que a festa não se estrague e as ofensas não aconteçam, peço desculpa aos que citei abusivamente e aos que não citei inocentemente. Fica a imaginação de um carnaval possível num tempo em que também havia tempo para a folia.

Miragaia sempre foi uma terra de festas, de bailes, de rusgas, de ranchos, de encantos mil.

Pelo Carnaval todas as colectividades tinham o seu programa de festejos e de bailes. Era tempo de teatro no Grupo Musical de Miragaia e na Associação Recreativa e Desportiva de São Pedro de Miragaia - a arte de Talma na criação e recriação de encenadores e actores amadores…mas muito competentes. Salas cheias e sessões extras certificavam a qualidade dos nossos artistas.

Mas Carnaval sem dança não era Carnaval.

A Fnat, o Estrela-Praia, o Esperança, o Mira Clube, o Rancho, e outras colectividades mais, juntavam-se ao Miragaia e ao Musical, e em todas elas havia bailes; no sábado e no domingo anteriores ao Entrudo, na véspera e no dia do Carnaval e, no sábado seguinte, não podia faltar o Baile da Pinhata. Hoje, nada disto acontece, que eu saiba. Saudades.

Miragaia continua a viver de disfarces.

Temos hostels em quase todas as ruas, vielas, becos, escadas e pátios, e turistas amestrados, ávidos por um prédio em ruinas, uma janela ou varanda com roupa a secar (ainda), cães famintos e gatos de rua, mas já não levam na Kodac as crianças descalças e com ranheta no nariz.

Temos o Museu dos Descobrimentos, impróprio para a bolsa dos habitantes, e deles afastado por um escarro arquitectónico: um passadiço que leva e traz os turistas para o museu sem terem que pisar Miragaia.

Temos o Centro de Congressos, eternamente Alfândega para nós, hoje mais apêndice que órgão da freguesia.

E temos – dura lex sed lex – o mais ignóbil dos “proveitos” destes modernismos: o estacionamento caótico, selvagem e explosivo em todos os espaços possíveis. Autêntico detonador de uma qualquer tragédia futura quando for preciso o acesso a bombeiros ou outras emergências.

Desenganem-se os que pensam que eu alinho com os velhos do Restelo, no propósito de manter a cidade como esqueleto decadente, sem progresso ou evolução. Não, eu não quero a minha cidade e a minha freguesia paradas no tempo, à mercê da degradação e da marginalidade. Mas…tem que haver respeito por nós – moradores -, tem que haver regras para os investidores e proveitos para nós – moradores -, tem que haver cidade com gente dentro, com tripeiros genuínos - moradores. Somos nós os que fizemos, fazemos e faremos um Porto único e diferente, com adn e encanto próprios.

Nada me move contra a invasão de investimentos e de turistas. Não me oponho ao Centro de Congressos. Não me incomoda a proliferação de hostels e tascas franchisadas. Não desdenho da validade e actualidade e interesse do Museu dos Descobrimentos. O que eu pronuncio, e espero, é um crescimento estrutural e inclusivo, para que um dia não sejam os tripeiros desalojados a tirar fotografias aos turistas invasores.

O Porto está bonito. Cada vez gosto mais de ser tripeiro. Miragaia continua a ser o meu berço.

E viva o Carnaval! Ninguém leva a mal!

Fernando Morgado

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