É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL.
OS MEUS MOSAICOS – 31
É CARNAVAL, NINGUEM LEVA A MAL
O Porto, de há muitas décadas
para cá, não tem uma tradição de corso carnavalesco como vemos por tantas
cidades e vilas e aldeias e lugares e becos deste país em permanente disfarce.
Se a amestração visual e a tradição
histórica nos levam para imagens mascaradas e travestidas, também é certo que a
arte do engano e das metáforas jocosas e divertidas são o complemento
obrigatória para qualquer “recado” que as escolas, transformadas em baterias, e
os anonimados pelas máscaras querem manifestar sob a protecção do “ninguém leva
a mal”.
Não foi este o carnaval que
aprendi.
Miragaia era terra de muita gente
e, mais ainda, de muita canalhada (termo carinhoso com que os miúdos eram
tratados nesta terra). Havia muita diversão, sem que o dinheiro fosse
importante para os festejos; simplesmente, não havia dinheiro – mas havia
vontade, criatividade e alegria!
De um cartão qualquer, ou de uma
cartolina (mais “fina” e cara), extraiamos uma máscara desenhada por cada um,
cortada à medida e ao formato da cara, e pintada com giz ou carvão, por forma a
ganhar uma careta medonha ou ridícula. Por vezes, completávamos os disfarces
com erva politária, cordas e fios a fazer de cabelo, ou um chapéu ou lenço de cabelo
(igual aos que as mulheres usavam para entrar na igreja) para que a identificação
etária também se alterasse.
À canalhada juntavam-se jovens e
adultos, à boleia da diversão que os pequenos provocavam, muito em função da
inocência que a idade lhes dava. Era frequente ver os mais crescidos em formato
“travesti”, munindo-se de tudo o que fosse possível para, assim, conseguirem as
figuras mais fantásticas, abstractas e hilariantes como à quadra convinha.
Um fato velho (havia novos?),
camisa e gravata – tudo encolhido ou diminuído por alinhavos, cordas ou
elásticos -, eram surripiados aos pais para trajar a loucura. Ou, então, uma
saia e uma blusa e um lenço e umas socas e um avental e um robe: tudo servia
para amulherar os machos de todas as idades, tornando-os matrafonas de ralé;
deliciosamente ridículos!
Alegria era coisa que não
faltava. Sobrava, até, para os turistas de kodac que se acumulavam em cima das
grades (só um miragaiense sabe o que isto quer dizer), capazes de fotografar as
imagens mas nunca os sentimentos e os disfarces mentais que, sub-repticiamente,
geravam tanta galhofa.
Em Miragaia, terra de apelidos e
cognomes e alcunhas, havia imensos casos de pessoas a quem não se conhecia o
nome próprio, tal era o uso do seu baptismo social, em função da família, da
rua, da ocupação, da deformação, do tique, do cadastro e do curriculum (mai’nada!).
A alcunha era, em si mesma, o primeiro e principal disfarce que as pessoas
usavam. Pouco adiantava que alguém procurasse o Sr. António que morava em
Monchique (aqui em Miragaia, claro) ou o Sr. António que morava no Cidral de
Cima (também em Miragaia, claro); ou perguntavam pelo Tono-sem-nada e pelo António-corrico,
ou ainda iam parar a Lisboa, onde morava o Sr. António…Salazar.
De repente, apetece-me imaginar
um carnaval do meu tempo de menino e adolescente, do tempo das gentes do meu
tempo. Deixo os olhos em corrupio pelo Largo da Praia, o Bento Peixoto, a
Drogaria Moura, o parque, a Conquistadora e o largo das bicicletas; encho-os de
gente com alcunha – disfarce do nome – e, em ressalva de culpa se alguém se
importunar, incluo na festa o Poupiço, o Chico Mula, o LéLé, o Cinco-e-meia, o
Muleta Negra, a Pata-rasa, a Tira-a-bicha, o Sucatas, a Pataca, o Tininho, o
Eiga, o Regedor, o Sinhosinho-malta, o Olho-do-caco, o Caçoila, o Sucatas, a
Maria dos pitos, o Sete-colhões, o Bacano, o ió-ió, o Maleiro, a Maria-pulga…grande
farra, grande festa, grande alegria.
Era tanta a folia que logo se juntavam
a ela o Migalhas, o Macaquinho, o Tirone, o Tareco, o Turra, o Marmitas, o
Tipita, o Carolas, o Zé Lambão, o Olho-de-vidro, o Cabeça-de-martelo, o Cabanas,
o Comidorme, o Mau-mau, o Sem-nada, o Gamelas; enfim, a festa era tanta com
tanta gente que a fazia!
Por vezes, até o Pilas e o
Jacaré, o Cachimbeiro e o Mama, o Gamelas e o Trincas, o Tonisca e o Unhacas, a
Tendeira e a Bananeira, a Rabela e o Mini-saia, a Maria-preta e a Sardinha, o
Tchuta e o Beira-alta, o Mata-carneiros e a Rancheira, o Moqueiro e o
Zé-cavalo, o Rela e o Teimoso, também apareciam para a galhofa.
Para que a festa não se estrague
e as ofensas não aconteçam, peço desculpa aos que citei abusivamente e aos que
não citei inocentemente. Fica a imaginação de um carnaval possível num tempo em
que também havia tempo para a folia.
Miragaia sempre foi uma terra de
festas, de bailes, de rusgas, de ranchos, de encantos mil.
Pelo Carnaval todas as colectividades
tinham o seu programa de festejos e de bailes. Era tempo de teatro no Grupo
Musical de Miragaia e na Associação Recreativa e Desportiva de São Pedro de
Miragaia - a arte de Talma na criação e recriação de encenadores e actores
amadores…mas muito competentes. Salas cheias e sessões extras certificavam a
qualidade dos nossos artistas.
Mas Carnaval sem dança não era Carnaval.
A Fnat, o Estrela-Praia, o
Esperança, o Mira Clube, o Rancho, e outras colectividades mais, juntavam-se ao
Miragaia e ao Musical, e em todas elas havia bailes; no sábado e no domingo
anteriores ao Entrudo, na véspera e no dia do Carnaval e, no sábado seguinte,
não podia faltar o Baile da Pinhata. Hoje, nada disto acontece, que eu saiba.
Saudades.
Miragaia continua a viver de
disfarces.
Temos hostels em quase todas as
ruas, vielas, becos, escadas e pátios, e turistas amestrados, ávidos por um
prédio em ruinas, uma janela ou varanda com roupa a secar (ainda), cães
famintos e gatos de rua, mas já não levam na Kodac as crianças descalças e com
ranheta no nariz.
Temos o Museu dos Descobrimentos,
impróprio para a bolsa dos habitantes, e deles afastado por um escarro arquitectónico:
um passadiço que leva e traz os turistas para o museu sem terem que pisar
Miragaia.
Temos o Centro de Congressos,
eternamente Alfândega para nós, hoje mais apêndice que órgão da freguesia.
E temos – dura lex sed lex – o mais
ignóbil dos “proveitos” destes modernismos: o estacionamento caótico, selvagem
e explosivo em todos os espaços possíveis. Autêntico detonador de uma qualquer
tragédia futura quando for preciso o acesso a bombeiros ou outras emergências.
Desenganem-se os que pensam que
eu alinho com os velhos do Restelo, no propósito de manter a cidade como
esqueleto decadente, sem progresso ou evolução. Não, eu não quero a minha
cidade e a minha freguesia paradas no tempo, à mercê da degradação e da
marginalidade. Mas…tem que haver respeito por nós – moradores -, tem que haver
regras para os investidores e proveitos para nós – moradores -, tem que haver
cidade com gente dentro, com tripeiros genuínos - moradores. Somos nós os que
fizemos, fazemos e faremos um Porto único e diferente, com adn e encanto
próprios.
Nada me move contra a invasão de
investimentos e de turistas. Não me oponho ao Centro de Congressos. Não me
incomoda a proliferação de hostels e tascas franchisadas. Não desdenho da
validade e actualidade e interesse do Museu dos Descobrimentos. O que eu
pronuncio, e espero, é um crescimento estrutural e inclusivo, para que um dia
não sejam os tripeiros desalojados a tirar fotografias aos turistas invasores.
O Porto está bonito. Cada vez
gosto mais de ser tripeiro. Miragaia continua a ser o meu berço.
E viva o Carnaval! Ninguém leva a
mal!
Fernando Morgado
Comentários
Enviar um comentário